Doenças Anais: Sabia que é possível diminuir o risco de fissura anal através da prevenção da obstipação?

Fonte: 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Drª. Ana Correia

Validação Científica:

Prof.Henrique Castelo

Leia aqui o artigo:

O que é?

O canal anal é a zona do aparelho digestivo que atravessa o canal muscular da região pélvica e os esfíncteres anais, com 4 a 5 cm de comprimento nos adultos, sendo o ânus o orifício final através do qual as fezes saem do corpo. A metade inferior do canal anal tem terminações nervosas sensitivas. Existem vasos sanguíneos sob o revestimento e na sua porção média encontram-se numerosas glândulas anais de pequenas dimensões. Este artigo descreve quatro patologias que causam dor e irritação anal:

  • Fissura anal – Uma fissura anal é uma fenda ou laceração no revestimento da parte inferior do canal anal. A maior parte das fissuras anais ocorrem quando fezes volumosas e duras distendem excessivamente a abertura anal e rasgam o revestimento anal. Menos frequentemente, as fissuras anais desenvolvem-se devido a uma diarreia prolongada, a uma doença inflamatória intestinal ou a doença sexualmente transmitida envolvendo a área ano-rectal. As fissuras anais agudas (de curta duração) são geralmente superficiais, enquanto as fissuras anais crónicas (de longa duração) podem ser mais profundas, expondo a superfície do músculo subjacente.
  • Abcesso anal – Um abcesso anal é uma colecção de pus dolorosa, acompanhada de edema, localizada próximo do ânus. A maior parte dos abcessos anais não estão relacionados com outros problemas de saúde e surgem espontaneamente, por razões pouco claras, originando-se numa glândula anal de pequenas dimensões que aumenta de volume até criar uma loca infectada sob a pele. Os abcessos anais ocorrem mais frequentemente em adultos jovens entre os 20 e os 40 anos, sendo mais comuns no sexo masculino. A maior parte dos abcessos anais estão localizados próximo da abertura do ânus mas, raramente, ocorrem numa zona mais profunda ou mais alta do canal anal, próximo da porção inferior do cólon ou dos órgãos pélvicos.
  • Fístula anal – Uma fístula anal constitui uma trajecto anormal,  assemelhando-se a um túnel, que estabelece uma ligação entre a porção média do canal anal e a superfície da pele perto do ânus. A fístula é frequentemente uma estrutura remanescente de um abcesso anal antigo depois de ter sido drenado (quer espontaneamente, quer após ser lancetado por um médico), sendo uma complicação que ocorre pelo menos em metade dos casos de abcessos anais. Por vezes, a abertura da fístula na superfície da pele drena constantemente pus ou um líquido sanguinolento. Noutros casos, a abertura da fístula encerra temporariamente, fazendo com que o abcesso anal antigo reapareça, formando uma bolsa dolorosa cheia de pus.
  • Hemorróidas –  As hemorróidas são vasos sanguíneos dilatados e salientes no canal anal, em redor do ânus (hemorróidas externas) ou dentro do ânus e na porção mais baixa do recto (hemorróidas internas). As hemorróidas habitualmente não causam dor. No entanto, por vezes, os vasos sanguíneos de uma hemorróida pequena situada na margem do orifício anal podem ficar obstruídos por um coágulo (“trombose”), o que pode ser desencadeado por um período de obstipação ou de diarreia. Quando ocorre trombose, a hemorróida externa fica edemaciada, dura e dolorosa, por vezes com um exsudado sanguinolento.

Manifestações Clínicas

Embora estas quatro patologias anais causem todas algum tipo de desconforto ou dor anal, as outras manifestações clínicas variam, dependendo do problema anal específico.

No caso da fissura anal, as manifestações podem incluir:

  • dor na área anal, frequentemente descrita como aguda, tipo ardor ou queimadura e geralmente desencadeada pela defecação
  • hemorragia anal ligeira, tipicamente a eliminação de uma pequena quantidade de sangue vermelho vivo com a defecação ou no papel higiénico.

As manifestações de abcesso anal incluem:

  • uma massa de consistência firme, dolorosa, acompanhada de edema, ao nível ou próximo da área anal, que pode aumentar de tamanho
  • ocasionalmente, febre, calafrios e uma sensação geral de mal-estar.

Os sinais e sintomas de fístula anal podem incluir:

  • dor ligeira em volta do ânus, localizada numa área onde um abcesso anal drenou espontaneamente ou foi drenado por um médico
  • drenagem persistente de sangue, pus ou muco de odor fétido ao nível da área anal
  • manifestações de abcesso anal recorrente (ver acima), que podem desenvolver-se no caso da abertura externa da fístula ficar obstruída e do abcesso antigo reaparecer.

As hemorróidas podem manifestar-se como hemorragia durante a defecação, com sangue vivo no papel higiénico e na sanita. Além disso, podem fazer um prolapso para fora do ânus. No caso de trombose de uma hemorróida externa, os sinais e sintomas incluem:

  • tumefacção dura e geralmente muito dolorosa no orifício anal
  • ocasionalmente, corrimento sanguinolento, se a superfície da hemorróida romper.

Diagnóstico

Depois do doente descrever os seus sintomas, o médico irá interrogá-lo sobre a sua história clínica e estilo de vida que irão ajudar a avaliar o problema anal. Dependendo das manifestações clínicas, o médico pode pedir informações sobre:

  • o trânsito intestinal, especialmente uma história de obstipação (“prisão de ventre”)
  • a história clínica, incluindo episódios prévios de hemorragia ano-rectal, antecedentes de doença hemorrágica, doença inflamatória intestinal, doenças sexualmente transmitidas ou radioterapia para tratamento de cancro
  • a utilização de medicamentos sujeitos ou não a prescrição médica que possam aumentar o risco de hemorragia
  • a prática de relações sexuais anais ou uma história de traumatismo anal

Em seguida, o médico irá proceder a um exame físico do abdómen, seguido por uma observação externa da área anal e por um toque rectal. Poderá realizar também uma anuscopia (inserção de um instrumento com a forma de tubo no canal anal para a sua observação) e/ou uma rectossigmoidoscopia (inserção de um tubo fino pelo ânus que avança até à parte inferior do cólon permitindo a observação do recto e da sigmoideia).

Evolução Clínica

A duração das doenças anais pode variar:

  • Fissura anal – As fissuras anais dolorosas podem constituir um problema recorrente no caso das pessoas que sofrem de episódios repetidos de obstipação. Felizmente, as fissuras superficiais geralmente cicatrizam rapidamente com o tratamento médico e a maior parte dos sintomas desaparecem dentro de dias a semanas.
  • Abcesso anal – Um abcesso anal por vezes drena espontaneamente, embora seja sempre mais seguro que o problema seja avaliado por um médico. Se não drenar espontaneamente, o médico pode fazer uma incisão para drenar o abcesso. Em seguida, a dor geralmente diminui imediatamente. O abcesso anal evolui frequentemente para uma fístula anal, mesmo com tratamento apropriado.
  • Fístula anal – Sem tratamento, uma fístula anal pode continuar a eliminar sangue ou pus durante períodos prolongados.
  • Hemorróida externa trombosada – De um modo geral, o organismo irá reabsorver o coágulo de sangue no interior da hemorróida e a dor e o edema irão desaparecer gradualmente ao longo de um período de dias a semanas.

Prevenção

É possível diminuir o risco de fissura anal através da prevenção da obstipação, tornando as fezes mais moles. Para isto, o doente deve aumentar gradualmente a quantidade de fibras na sua dieta, ingerir 6 a 8 copos de água por dia e realizar exercício físico. Os suplementos de fibra actualmente comercializados são eficazes.

Embora nem sempre seja possível prevenir outros tipos de doenças anais, pode diminuir-se o risco destas doenças através das seguintes medidas:

  • utilizando técnicas suaves para limpar a área anal
  • mantendo a área seca, mudando de roupa interior frequentemente e utilizando pó para absorver a humidade
  • utilizando sempre um preservativo no caso da prática de relações sexuais anais
  • nunca inserindo qualquer corpo estranho no ânus.

Tratamento

Uma vez realizado o diagnóstico, o tratamento das patologias anais pode envolver ou não a realização de uma intervenção cirúrgica, dependendo da doença específica. Se a cirurgia for necessária, o médico irá usar uma anestesia apropriada para ajudar a prevenir as dores nesta área muito sensível.

  • Fissura anal – Na fissura aguda, o médico pode recomendar que o doente cumpra as medidas para evitar a obstipação acima descritas (no capítulo da Prevenção) e pode aconselhá-lo a imergir a área anal em água morna durante 10 a 15 minutos diversas vezes por dia (banho de assento) e a aplicar uma pomada na fissura anal (anestésicos tópicos e/ou pomadas que diminuem o espasmo do esfíncter anal). Nas fissuras crónicas, a cirurgia pode corrigir o problema em mais de 90% dos casos.
  • Abcesso anal – Um abcesso anal deve ser aberto ou lancetado por um médico para drenar o pus. Este procedimento (incisão e drenagem), pode geralmente ser realizado em regime de ambulatório, especialmente no caso de o indivíduo ser jovem e saudável e do abcesso se situar próximo do orifício anal.
  • Fístula anal – A cirurgia para abrir o trajecto fistuloso (“fistulotomia”) constitui a terapêutica mais eficaz. O médico abre o trajecto infectado e raspa quaisquer remanescentes do abcesso anal antigo. A ferida é deixada aberta para cicatrizar por segunda intenção. Se a fístula estiver associada à doença de Crohn, o tratamento é dirigido para esta doença, consistindo na administração de medicamentos anti-inflamatórios combinados com um antibiótico.
  • Hemorróidas –   O tratamento geral das hemorróidas consiste em suplementos de fibras para diminuir a consistência das fezes, na imersão frequente em água morna (“banhos de assento”) e na utilização de medicamentos de aplicação local. As hemorróidas sintomáticas, que não cedem com a implementação destas medidas, pode exigir outras intervenções como a laqueação elástica, esclerose ou remoção cirúrgica das hemorróidas. A hemorróida externa trombosada geralmente regride espontaneamente mas o processo pode ser acelerado se o médico realizar uma pequena incisão na hemorróida, de forma a sair o coágulo, sob anestesia local.

Quando contactar um médico

Contacte o seu médico sempre que tiver hemorragias ano-rectais ou qualquer corrimento sanguinolento a partir do ânus. Mesmo que já tenha tido uma fissura anal ou que tenha hemorróidas, é sempre mais seguro consultar o médico, especialmente se tiver mais de 40 anos, uma vez que a partir desta idade verifica-se um aumento do risco de hemorragia rectal em consequência de um cancro colorrectal e de outras doenças graves do aparelho digestivo.

Consulte igualmente o médico se tiver:

  • dores intensas na área anal
  • uma massa ou tumefacção dolorosa próxima do ânus, com ou sem febre
  • pus ou exsudado de odor fétido a partir do ânus
  • desconforto ou tensão na área anal que interfere com a defecação

Prognóstico

Na maior parte dos casos, o prognóstico é excelente. Quase todas as fissuras agudas cicatrizam rapidamente com um tratamento conservador e quase todas as fístulas e fissuras crónicas podem ser corrigidas com cirurgia.

A maior parte dos abcessos anais cicatrizam depois de serem drenados por um médico mas alguns evoluem para fístulas anais. Se uma fístula complicar a cicatrização de um abcesso, a realização de uma fistulotomia irá eliminar completamente tanto a fístula como qualquer abcesso remanescente na maior parte dos doentes.

Informação Adicional

Sociedade Portuguesa de Coloproctologia
Alto Comissariado da Saúde

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