Doença do refluxo gastro-esofágico (DRGE)

Fonte:

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Carolina Vaz Macedo

Validação Científica:

Prof. Carla Rolanda

O que é?

A doença do refluxo gastro-esofágico (DRGE) é uma doença do aparelho digestivo que envolve o esófago, o tubo que transporta os alimentos da boca para o estômago.

Na DRGE, o ácido e as enzimas digestivas do estômago refluem para o esófago, sendo este fluxo retrógrado do suco gástrico denominado “refluxo”. Os sucos gástricos inflamam o revestimento do esófago provocando azia e outros sintomas. Se a DRGE não for tratada pode lesar permanentemente o esófago.

Um anel muscular chamado “esfíncter esofágico inferior” separa o esófago do estômago e, normalmente, apenas se abre quando engolimos, permitindo a entrada dos alimentos no estômago. Durante o resto do tempo, o esfíncter mantém-se contraído para evitar que os alimentos e o ácido do estômago recuem para o esófago.


Na maior parte das pessoas com DRGE, o esfíncter esofágico inferior não se encerra firmemente e permanece relaxado entre as deglutições, permitindo que o suco digestivo entre no esófago e irrite o revestimento deste órgão.
Existem muitos factores que podem enfraquecer ou relaxar o esfíncter esofágico inferior, incluindo:

  • Tabaco
  • Álcool
  • Gravidez
  • Obesidade (por aumento da pressão dentro do abdómen)
  •  Determinados alimentos
  • Muitos medicamentos
  • Hérnia do hiato (deslizamento de parte do estômago para a região acima do diafragma, o músculo que separa o tórax do abdómen)

Uma exposição prolongada ao ácido pode fazer com que o esófago:

  • fique inflamado
  • diminua de calibre (fique estreitado)
  • desenvolva uma úlcera.

A exposição ao ácido pode conduzir a longo prazo a uma doença denominada “esófago de Barrett”, que aumenta o risco de cancro do esófago.

Manifestações clínicas

Os sintomas de DRGE podem incluir:

  • Dor aguda (repentina) ou tipo queimadura no meio do peito (retrosternal), também conhecida por azia ou pirose. Este é o sintoma mais comum de DRGE e pode agravar-se com a ingestão de alimentos, com a flexão do tronco para a frente ou com o estar deitado (estar em decúbito). Para muitas pessoas com DRGE, a azia não é meramente um desconforto ocasional, mas sim um sintoma que constitui um incómodo frequente ou mesmo diário.
  • Sensação de aperto no peito ou na parte de cima da barriga (“estômago”); a dor pode acordar o doente a meio da noite.
  • Regurgitação, isto é, refluxo de fluidos do estômago para a boca
  • Náuseas
  • Sabor recorrente ácido ou amargo na boca
  • Dificuldade em deglutir (“engolir em seco”)
  • Rouquidão, especialmente de manhã
  • Dores de garganta
  • Tosse, pieira (“gatinhos”) ou necessidade repetida de aclarar a garganta.

Diagnóstico

O médico irá perguntar ao doente com que frequência apresenta azia ou outros sintomas de DRGE, se os sintomas se agravam quando se deita ou com a flexão do tronco para a frente e se se sente aliviado pelos medicamentos de venda livre para a azia.
O médico irá igualmente rever a medicação do doente. Alguns medicamentos podem provocar o relaxamento do esfíncter esofágico e agravar a DRGE, incluindo:

  • Medicamentos para a asma, como a teofilina ou o albuterol
  • Medicamentos para a hipertensão arterial ou para o coração, como os bloqueadores dos canais do cálcio e a nitroglicerina
  • Relaxantes musculares
  • Medicamentos para a ansiedade
  • Medicamentos para uma bexiga hiperactiva
  • Medicamentos para a enxaqueca
  • Medicamentos para tratar a diarreia
  • Medicamentos que reduzem a quantidade de saliva produzida, como os anti-histamínicos (anti-alérgicos) e os antidepressivos

Uma dor semelhante à azia pode ser um sintoma de doença coronária. O médico pode perguntar ao doente se tem sintomas sugestivos de problemas cardíacos e pode igualmente pedir exames para avaliação cardíaca.
Se a única queixa do doente for a azia e o exame físico for normal, o médico pode sugerir alterações do estilo de vida e medicamentos de venda livre que previsivelmente irão aliviar as queixas. Podem não ser necessários quaisquer exames diagnósticos especiais ou tratamento prescritos pelo médico.

Se o doente tiver sintomas mais graves, como azia intensa e prolongada, dificuldades em engolir ou perda de peso, ou se a azia não for aliviada pelos medicamentos, poderá ser necessário realizar exames adicionais.
O exame inicial habitualmente pedido para avaliar este tipo de queixas é a endoscopia digestiva alta. Neste exame, o gastrenterologista visualiza directamente o esófago, o estômago e a primeira parte do intestino delgado por meio de um endoscópio (tubo flexível) que pode ser introduzido através da boca e da garganta. Durante a endoscopia digestiva alta, o médico pode obter uma pequena amostra de tecido para ser subsequentemente examinada num laboratório.

Podem ainda ser requisitados um ou mais dos seguintes exames diagnósticos:

  • Radiografia de esófago, estômago e duodeno — radiografia realizada após a deglutição de uma substância de contraste com bário, para visualizar o esófago
  • Avaliação cardíaca — para verificar se existe uma doença cardíaca
  • Estudos da motilidade ou manometria esofágica — para avaliar os movimentos peristálticos (contracções) do esófago com a deglutição
  • Monitorização do pH esofágico — utiliza eléctrodos para avaliar o pH (nível de ácido) no esófago; este exame é geralmente realizado ao longo de um período de 24 horas.

Evolução clínica

Sem tratamento, a DRGE é tipicamente um problema a longo prazo.
Os sintomas podem ser aliviados ao fim de alguns dias de tratamento, mas em muitos doentes são necessárias várias semanas antes de os sintomas diminuírem ou desaparecerem e é muitas vezes necessário manter o tratamento durante um longo período. Mesmo com medicação diária, algumas das pessoas com refluxo continuam a ter sintomas.

Prevenção

Existem diversas medidas que podem ser adoptadas para prevenir os sintomas da DRGE. Algumas alterações simples do estilo de vida incluem:

  • Elevação da cabeceira da cama pelo menos 7,5 cm; se possível, podem ser colocados blocos de madeira sob as pernas da cama do lado da cabeceira ou utilizada uma cunha de espuma compacta sob o colchão do lado da cabeceira; a utilização simples de almofadas suplementares pode não proporcionar alívio
  • Evitar os alimentos que provocam relaxamento do esfíncter durante a digestão, incluindo:
  • café
  • chocolate
  • alimentos gordos
  • leite gordo
  • menta ou hortelã-pimenta (Mentha piperita e Mentha spicata)
  • Limitar a ingestão de alimentos ácidos que agravam a irritação quando são regurgitados, incluindo os citrinos e os tomates
  • Evitar as bebidas gaseificadas, pois as eructações de gás forçam a abertura do esfíncter esofágico e promovem o refluxo
  • Ingerir refeições mais pequenas e mais frequentes
  • Não se ir deitar logo depois de comer. Não deve comer durante três a quatro horas antes de se deitar
  • Se fumar, deixar de o fazer
  • Evitar beber álcool, pois este provoca o relaxamento do esfíncter esofágico inferior
  • Perder peso se for obeso; a obesidade pode dificultar a manutenção do esfíncter esofágico encerrado
  • Evitar usar vestuário apertado; o aumento da pressão no abdómen pode abrir o esfíncter esofágico inferior
  • Utilizar comprimidos ou pastilhas elásticas para produzir saliva

As pessoas com DRGE durante mais de cinco anos devem ser testadas para identificar a presença de um esófago de Barrett. Se esta situação for encontrada, é aconselhável a realização de endoscopias com intervalos regulares, de modo a que eventuais alterações cancerosas possam ser identificadas e tratadas quando o cancro se encontra nos seus estádios mais precoces.

Tratamento

O tratamento para a maior parte das pessoas com DRGE inclui as alterações do estilo de vida descritas na secção anterior, bem como medicamentos caso necessário. Se os sintomas persistirem, os tratamentos cirúrgicos ou endoscópicos constituem opções adicionais.

Medicamentos

Existem diversos medicamentos que podem ser utilizados para tratar a DRGE, incluindo:

  • Inibidores da bomba de protões — Os inibidores da bomba de protões interrompem a produção de ácido pelo estômago e são muito eficazes no alívio dos sintomas. Estes medicamentos bloqueiam a produção de ácido de forma mais potente do que os bloqueadores H2, embora demorem mais tempo a iniciar o seu efeito.
  • Bloqueadores H2 — Estes medicamentos, que incluem a famotidina, a cimetidina e a ranitidina, fazem com que o estômago produza menos ácido. A dose de medicamento a tomar dependerá da gravidade dos sintomas.
  • Protectores da mucosa — Estes medicamentos revestem, suavizam e protegem o revestimento esofágico irritado; o sucralfato é um exemplo.
  • Anti-ácidos de venda livre — Estas substâncias tampão neutralizam o ácido. As formas líquidas destes medicamentos actuam mais rapidamente, mas os comprimidos são mais cómodos. Os antiácidos que contêm magnésio podem causar diarreia e os que contêm alumínio podem causar obstipação. O médico pode aconselhar o doente a alternar os antiácidos para evitar estes problemas. Estes medicamentos resultam em alívio sintomático durante períodos curtos e não cicatrizam a inflamação do esófago.
  • Medicamentos que aumentam a motilidade — Estes medicamentos podem ajudar a diminuir o refluxo esofágico, pois ajudam o estômago a esvaziar-se mais rapidamente e, como tal, diminuem o tempo durante o qual pode ocorrer refluxo. No entanto, não são muito eficazes por si só e geralmente são usados em combinação com outras classes de medicamentos.

Cirurgia

A cirurgia constitui uma opção para as pessoas com sintomas de DRGE graves e difíceis de controlar, podendo igualmente ser considerada para as pessoas que têm complicações, tais como asma ou pneumonias, ou tecido cicatricial no esófago. Algumas pessoas que não querem tomar medicamentos durante períodos prolongados podem também optar pela cirurgia.

A cirurgia anti-refluxo pode ser realizada utilizando instrumentos orientados por uma câmara (cirurgia laparoscópica), o que requer incisões de menores dimensões do que a cirurgia convencional.

Num procedimento denominado fundoplicatura de Nissen, o excesso de tecido do estômago é enrolado em volta do esófago e suturado nessa posição de forma a aumentar a pressão em volta do esfíncter esofágico inferior enfraquecido.

Esta operação parece aliviar os sintomas de forma quase tão eficaz como os medicamentos bloqueadores da acidez gástrica sujeitos a prescrição médica. As taxas de sucesso da cirurgia podem ser mais baixas nas pessoas cujos sintomas não são aliviados pelos medicamentos antiácidos. Após a cirurgia, algumas pessoas apresentam efeitos secundários desagradáveis e prolongados (como dificuldade em engolir, diarreia e incapacidade para eructar – “arrotar” – ou vomitar para aliviar o enfartamento ou náuseas), mas a maior parte dos indivíduos ficam muito satisfeitos com os resultados.

Tratamentos endoscópicos

Foram desenvolvidos três novos tratamentos para fortalecer o esfíncter esofágico inferior utilizando um endoscópio:

  • sutura (plicatura)
  • aquecimento (procedimento de Stretta)
  • injecção do esfíncter com um material que promove um aumento de volume (procedimento de Enteryx)

Como estes tratamentos foram desenvolvidos recentemente, as suas taxas de sucesso a longo prazo são ainda desconhecidas e sabe-se pouco sobre as suas potenciais complicações.

Prognóstico

A maior parte dos doentes melhora depois do tratamento com medicamentos mas podem ser necessárias várias semanas de tratamento até os sintomas começarem a regredir.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
http://www.spg.pt/

Alto Comissariado da Saúde
http://www.acs.min-saude.pt

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2 Respostas to “Doença do refluxo gastro-esofágico (DRGE)”

  1. gilvandro Says:

    gostei dessa opçao (cirurgia). pois a DRGE e um problema muito complicado. pois diminui muito a qualidade de vida da gente.Pois temos que deixar de fazer muitas coisas que gostamos. Por exemplo, comer muito. A dor é um icômodo. Quando eu fico sentado por uns minutos ela começa a aparecer. Isso me deixar irritado. Pois não conseguimos nos livrar dela tão fácil.
    Gostaria de saber como procedo para realizar a cirurgia, e quanto ela iria me custar.
    Meu e-mail é ger-roque@hotmail.com
    Por favor me responda.
    Givandro .

    • info2hmsportugal Says:

      Caro Gilvandro,
      Estando o Programa consciente e totalmente solidário com o seu pedido de ajuda, a politica editorial do Programa não permite fazer referenciação médica ou emitir segundas opiniões. O objetivo foca-se em dar informação complementar com a melhor base cientifica que não dispensa acompanhamento médico presencial.

      Esperemos que compreenda o nosso posicionamento e esperamos que na informação que produzimos lhe consigamos ser útil.

      Sinceros cumprimentos


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