Úlcera Péptica

Fonte:

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Dr. Nuno Ferreira

Validação Científica:

Prof. Carla Rolanda

O que é?
Uma úlcera péptica é uma ferida que se localiza no revestimento do estômago ou dos intestinos.
O termo “péptico” refere-se ao agente agressor responsável pela ferida, o suco produzido pelas glândulas do estômago (ácido e pepsina). Uma úlcera no revestimento do estômago é designada por úlcera gástrica, enquanto uma úlcera que afecta a parte inicial do intestino delgado é uma úlcera duodenal.


O revestimento do estômago é uma camada de células especiais e de muco. Este último evita que as paredes internas quer do estômago quer do duodeno sejam danificadas pelo ácido gástrico e pelas enzimas libertadas durante o processo digestivo.


Se ocorrer um rompimento nesse revestimento, (como no caso de uma úlcera) os tecidos sob esse revestimento podem ser lesados pelas enzimas e pelos ácidos corrosivos. Caso se trate de uma úlcera de menor dimensão, poderão verificar-se poucos sintomas e pode até dar-se o caso de ela curar por si mesma.
Se, porém, a úlcera for profunda, pode causar dores intensas e sangramento. Embora tal cenário seja uma ocorrência rara, pode acontecer que os ácidos presentes no suco gástrico destruam em profundidade as paredes do estômago ou do duodeno, causando perfuração do órgão.

As úlceras pépticas são vulgares e tornam-se mais comuns à medida que as pessoas envelhecem.
Crê-se que a maior parte das úlceras pépticas são causadas por uma bactéria específica, o Helicobacter pylori, um organismo que causa uma inflamação do revestimento interno do estômago que o deixa fragilizado e vulnerável. Ainda assim, só uma minoria das pessoas infectadas com essa bactéria acaba por desenvolver úlceras.

Uma outra causa comum das úlceras pépticas é o uso frequente de medicamentos anti-inflamatórios não-esteróides (AINE). Alguns exemplos deste tipo de medicamentos incluem a aspirina, ibuprofeno, naproxeno.
Os medicamentos anti-inflamatórios não-esteróides bloqueiam a formação de prostaglandinas, que são compostos químicos que protegem a mucosa de revestimento do estômago e intestino. Com uma quantidade menor de prostaglandinas, existe uma maior probabilidade de ocorrência de úlceras.
Existem diversos factores que contribuem para aumentar o risco de um indivíduo poder vir a desenvolver uma úlcera péptica. Estes factores de risco incluem:

  • Factores hereditários
  • Fumar (particularmente se estiver infectado pela H. pylori)
  • Consumo excessivo de álcool

No entanto, contrariamente à opinião corrente, nem o stress nem as comidas muito picantes ou condimentadas parecem ter qualquer influência na possibilidade de vir a desenvolver uma úlcera.

Manifestações clínicas

A maioria das pessoas com úlceras queixa-se de dores e de uma sensação intensa de ardor na zona superior do abdómen. Tipicamente, isto acontece numa situação em que o estômago está vazio. Assim sendo, os sintomas tendem a ser mais intensos à noite ou ao acordar. Contudo, em alguns casos, a dor agrava-se quando a pessoa come.
Outros sintomas incluem:

  • Náusea
  • Vómitos
  • Perda de apetite
  • Barriga inchada
  • Eructação (arrotar)
  • Perda de peso

Pode conseguir-se alívio para alguns destes sintomas através da toma de anti-ácidos de venda livre ou evitando alimentos muito condimentados ou de acidez elevada.

Em geral, os sintomas agravam-se à medida que a úlcera aumenta, ou no caso de se desenvolverem mais do que uma, mas pode suceder que pessoas com úlceras de menores dimensões nem apresentem sintoma algum.
Nos casos mais severos, as úlceras podem apresentar sangramento ou penetrar muito profundamente nas paredes do estômago ou do intestino e, neste caso, a perda de sangue através de uma úlcera de grandes dimensões pode colocar o doente em sério risco de vida. O sangue pode surgir no vómito, e nesse caso terá uma tonalidade vermelha ou negra, podendo ainda assemelhar-se a borras de café. Pode ainda surgir nas fezes, as quais, nesta situação, terão um aspecto muito escuro, quase pretas (semelhantes a alcatrão), ou castanho-avermelhadas.

Se uma úlcera se desenvolver a ponto de corroer toda a parede do estômago ou do intestino, causando uma perfuração, pode desenvolver-se uma peritonite, uma infecção abdominal de extrema gravidade.

Diagnóstico

Se o seu médico suspeitar que sofre de uma úlcera péptica, ele pode recorrer aos seguintes exames complementares de diagnóstico:

  • Uma análise de anticorpos no sangue para fazer o rastreio de infecção por parte da bactéria H. pylori. Este teste é facilmente disponibilizado e muito fácil e simples de realizar. Se o resultado der positivo, pode ser iniciado o tratamento.

No entanto, a análise a H. pylori nem sempre é rigorosa, até porque a análise pode dar positiva mesmo anos após uma infecção por H. pylori ter sido tratada. Além disso, a análise por si só não é absolutamente conclusiva, pois ainda que se verifique uma infecção com H. pylori , não é certa a existência ou não de úlcera.

  • Uma esofagogastroduodenoscopia (EGD ou endoscopia). É actualmente o exame de diagnóstico mais eficaz para esta condição. Este procedimento consiste na inserção de uma sonda flexível com uma microcâmara instalada na ponta através do esófago até chegar ao estômago e intestinos e permite ao médico examinar as paredes interiores do esófago, estômago e do duodeno.

O médico pode proceder à recolha de uma amostra do revestimento do estômago para uma biopsia. A biopsia é um exame laboratorial de tecido recolhido do corpo e que, neste caso, permitirá verificar a existência de infecção por H. pylori. Poderá ainda servir para que o médico se possa certificar de que a úlcera não se formou devido a cancro (no caso das úlceras do estômago).

  • Raios-X baritado ao tracto gastrointestinal. Actualmente, este exame só raramente se realiza dado que a endoscopia apresenta melhores resultados. Consiste numa série de raios-X tirados após o doente beber um preparado líquido opaco (de contraste) que cobre o esófago, o estômago e a parte superior do intestino.

  • Outras análises a H. pylori. Outro teste útil para detectar esta bactéria é o chamado teste respiratório de ureia. Este implica o doente engolir uma substância rica em carbono (em muitos casos está presente uma pequena quantidade de radioactividade). Se houver presença de H. pylori no seu estômago, o teste ao ar exalado dará positivo.

Podem ainda ser testadas amostras de fezes para verificar a presença de proteínas associadas à bactéria. Por vezes, é necessário recorrer a mais do que um exame para fazer o diagnóstico da sua doença.

Evolução clínica

Úlceras causadas pela toma de medicação deverão começar a curar pouco depois de a medicação ser interrompida. Neste caso pode recorrer-se a inibidores da secreção ácida durante um período de duas a seis semanas para ajudar à cicatrização e proporcionar o alívio das dores.

Quanto às úlceras causadas pela bactéria H. pylori, poderão começar a curar logo após a bactéria ser eliminada. Num caso típico, deverá tomar antibióticos em conjunto com medicamentos anti-ácidos durante o período de 10 dias a duas semanas. Depois deste período, o antibiótico será retirado, mantendo-se todavia um tratamento à base de inibidores da secreção ácida durante outras quatro a oito semanas.

As úlceras gástricas tendem a cicatrizar mais lentamente do que do que as úlceras duodenais. Uma úlcera gástrica sem complicações associadas poderá levar dois a três meses a curar completamente. Já uma úlcera duodenal cura-se no prazo de cerca de seis semanas.

Uma úlcera pode melhorar temporariamente sem recurso a antibióticos. Todavia, é bastante comum que uma úlcera possa reaparecer ou que uma outra úlcera surja perto do local inicial se a bactéria não for eliminada.

Prevenção

As úlceras pépticas não são evitáveis da primeira vez que ocorrem.
A infecção através de H. pylori é extremamente comum e pode, transmitir -se de pessoa para pessoa. Habitualmente adquire-se na infância.

Uma higiene cuidada pode limitar um pouco a expansão da bactéria H. pylori. Gestos simples como lavar as mãos antes das refeições e depois de usar a casa de banho são úteis.
Úlceras recorrentes devido à acção da H. pylori podem normalmente ser evitadas se a sua primeira úlcera for devidamente tratada. Este tratamento deverá incluir antibióticos para eliminar a bactéria.

Pode tentar evitar o aparecimento de úlceras pépticas:

  • Evitando fumar
  • Evitando o uso excessivo de álcool
  • Limitando o recurso a medicamentos anti-inflamatótios não-esteróides para o controlo da dor

Tratamento

O tratamento das úlceras causadas pela H. pylori requer uma combinação de medicamentos que servem diversos objectivos terapêuticos, tais como:

  • Eliminar a bactéria H. pylori do organismo
  • Reduzir a quantidade de ácido no estômago
  • Proteger o revestimento interno do estômago e intestinos

Na maioria dos casos aplica-se uma terapia tripla. Isto requer a tomada de dois antibióticos e de um medicamento que inibe a secreção ácida durante uma ou duas semanas. O seu médico prescreverá um regime específico para o seu caso, baseado nos critérios de conveniência, custo e quaisquer alergias que o doente possa ter.

Se a úlcera tiver ocorrido enquanto esteve a utilizar medicamentos anti-inflamatórios não-esteróides (NSAID), precisará de suspender a toma dos mesmos. O processo de cura da úlcera começará de forma natural quase imediatamente, mas o seu médico poderá prescrever medicamentos para reduzir a acção nefasta dos ácidos gástricos durante o processo de cicatrização. Alguns exemplos incluem bloqueadores H2 ou inibidores da bomba de protões.

Se duma úlcera resultar um sangramento abundante, poderá ser necessário recorrer a tratamento de urgência. Usualmente, este é realizado por meio de um endoscópio. Nessa circunstância os medicamentos bloqueadores do ácido gástrico podem ser administrados por via intravenosa (injectados numa veia). Em caso de hemorragia severa, pode ser necessária a realização de uma transfusão sanguínea.

Em situações cada vez mais raras, pode ser inevitável o recurso à cirurgia para tratar uma úlcera péptica que esteja a sangrar abundantemente ou que tenha perfurado a parede do estômago ou intestino. Ainda assim, hoje em dia, raramente é necessário proceder a uma intervenção cirúrgica para o tratamento de úlceras pépticas. Tal acontece porque os tratamentos médicos para o a  o H. pylori e para a cicatrização da úlcera  se vêm revelando bastante eficientes e por outro lado, os tratamentos endoscópicos resolvem a maioria das complicações hemorrágicas.

Quando contactar um médico

Procure aconselhamento médico se sofrer de dores abdominais contínuas ou de indigestão persistente. Contacte também o seu médico caso precise de tomar antiácidos com muita frequência para evitar estes sintomas.
Procure cuidados médicos de urgência se sentir:

  • Dor súbita, aguda e muito forte no abdómen
  • Vómito negro ou ensanguentado
  • Fezes muito escuras ou de tonalidade avermelhada

Prognóstico

Com o tratamento adequado, as perspectivas de cura para o doente com úlcera péptica são excelentes.
Para evitar outra úlcera, as pessoas que já tiverem uma úlcera péptica devem evitar:

  • Aspirina (a menos que seja necessário tomar uma dose pequena para prevenir a ocorrência de enfarte ou de um AVC)
  • Medicamentos anti-inflamatórios não-esteróides.
  • O abuso de bebidas alcoólicas
  • Fumar

Informação Adicional

Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
http://www.spg.pt/

Direcção Geral de Saúde
Site: http://www.dgs.pt/

Alto Comissariado da Saúde
http://www.acs.min-saude.pt/

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Uma resposta to “Úlcera Péptica”

  1. Úlcera Péptica « Programa Harvard Medical School – Portugal Says:

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