Otite média crónica, colesteatoma e mastoidite

Fonte: 

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Dr. André Carvalho

Validação Científica:

Drª Luísa Monteiro

O que é?

A otite média crónica representa um conjunto de problemas do ouvido médio de evolução crónica, tais como uma perfuração do tímpano que não cicatriza ou uma infecção do ouvido médio (otite média) que não melhora ou que recidiva sucessivamente.

O ouvido médio é uma pequena câmara óssea contendo três ossos minúsculos ― o martelo, o estribo e a bigorna ― e limitada externamente pelo tímpano (ou membrana timpânica). O som é transmitido pelo tímpano e pelos ossos do ouvido médio até ao ouvido interno, onde são criados os impulsos nervosos para a audição. O ouvido médio encontra-se ligado à zona da faringe situada atrás do nariz através da trompa de Eustáquio, um canal estreito que ajuda a controlar o fluxo de ar e a pressão no interior do ouvido médio. Este último pode ficar inflamado ou infectado quando a trompa de Eustáquio fica bloqueada, por exemplo, quando uma pessoa tem uma constipação. Quando se verifica a persistência de líquido no ouvido médio, este problema é denominado otite média serosa, podendo evoluir para uma doença crónica quando a duração é superior a 3 meses.

Por vezes, uma infecção do ouvido médio pode provocar um orifício (perfuração) no tímpano. Um orifício que não cicatriza dentro de seis semanas é denominado otite média crónica. Este problema pode tomar uma de três formas:

  • Otite média crónica não infectada – Quando existe um orifício no tímpano mas não se observa a presença de infecção ou de líquido no ouvido médio. Além da perfuração pode existir uma lesão dos ossículos.  Esta situação pode persistir indefinidamente e, desde que o ouvido permaneça seco, o ouvido médio e o ouvido interno podem manter-se estáveis durante anos. A reparação do orifício apenas é necessária para melhorar a audição ou para prevenir a infecção.

  • Otite média crónica supurativa (purulenta) – Isto acontece quando existe simultaneamente uma perfuração do tímpano e uma infecção no ouvido médio. Há uma drenagem de um líquido turvo e, por vezes, fétido através da abertura. O tratamento com antibióticos, acompanhado por aspirações e aplicação de gotas otológicas, geralmente ajuda a eliminar a infecção activa.
  • Otite média crónica com colesteatoma – Um orifício persistente no tímpano pode, por vezes, conduzir ao aparecimento de um colesteatoma, uma massa (tumor benigno) no ouvido médio formada por células cutâneas e detritos. Pode igualmente formar-se um colesteatoma mesmo sem nenhum orifício, quando há um bloqueio crónico da trompa de Eustáquio e o tímpano começa a ficar muito deprimido e se invagina para dentro da caixa do tímpano. Os colesteatomas congénitos são muito raros e encontram-se presentes na altura do nascimento, não são causados por uma perfuração, não têm causa exacta conhecida. Os colesteatomas podem causar perda da audição e têm tendência a infectar, o que pode condicionar o aparecimento de otorreia (drenagem de líquido pelo ouvido). Os colesteatomas podem crescer o suficiente para provocar uma erosão das estruturas do ouvido médio e da mastóide, osso que faz parte do ouvido médio, comunicando com  a caixa do tímpano e se situa atrás da orelha.

Os problemas do ouvido médio, tais como a acumulação de líquido nesta estrutura, uma perfuração do tímpano ou uma lesão dos ossículos do ouvido médio, podem ocasionar perda da audição. Em situações raras, as infecções do ouvido médio podem disseminar-se profundamente para o ouvido interno, causando uma perda de audição sensório-neural e tonturas. Podem também complicar-se de infecções cerebrais, tais como um abcesso ou uma meningite bacteriana. A infecção crónica e o colesteatoma podem igualmente causar uma lesão do nervo facial e paralisia facial.

As crianças têm uma maior probabilidade de apresentar infecções agudas do ouvido médio e têm também uma maior tendência para desenvolver uma otite média crónica. Os médicos acreditam que as crianças apresentam um risco especialmente elevado de todos os tipos de infecção do ouvido devido a diversos factores, incluindo:

  • um sistema imunitário imaturo
  • alergias não diagnosticadas
  • trompas de Eustáquio mais pequenas e menos angulosas em comparação com as dos adultos
  • adenóides de grandes dimensões ou infectadas (massas de tecido localizadas na garganta, perto da abertura das trompas de Eustáquio, e que têm como função combater as infecções)
  • exposição ao fumo de tabaco
  • frequência de infantários.

Manifestações clínicas

Uma pessoa pode ter uma otite média crónica causada pela persistência de um orifício no tímpano durante anos sem sintomas ou apenas com uma perda ligeira da audição. Por vezes pode ocorrer uma dor de ouvidos ligeira ou desconforto e quando o ouvido médio está infectado, o doente pode apresentar uma drenagem de líquido pelo ouvido com agravamento da perda da audição.

As alterações que podem constituir um sinal de um problema mais grave e que requerem atenção imediata, são:

  • dor intensa, tonturas e lesão do nervo facial (paralisia facial)
  • inchaço, dor e vermelhidão atrás do ouvido, que podem indicar uma disseminação da infecção para a mastóide (mastoidite)
  • febre, dores de cabeça e confusão mental.

Diagnósticos

O médico deverá interrogar o doente sobre uma história de infecções dos ouvidos, os tratamentos usados e qualquer cirurgia prévia aos ouvidos. É também importante querer saber quais os medicamentos tomados, incluindo o tipo, a dose e a duração do tratamento.

O médico pode suspeitar de uma otite média crónica com base numa história prévia de infecções dos ouvidos e/ou otorreia persistente. Para confirmar o diagnóstico, ele irá observar o interior do ouvido com um aparelho especial com luz denominado otoscópio e pode colher uma amostra do líquido drenado para que seja observada num laboratório.

Em alguns casos, o médico dos cuidados de saúde primários pode referenciar o doente para um otorrinolaringologista, um médico especializado no tratamento de doenças dos ouvidos, nariz e garganta. Se o otorrinolaringologista suspeitar da presença de uma mastoidite ou de um colesteatoma, podem ser necessários testes adicionais, incluindo radiografias, tomografia computorizada ou ressonância magnética nuclear. Se existir a suspeita de atingimento da audição, esta pode ser avaliada por um teste denominado audiograma.

Evolução clínica

A duração dos sintomas varia. O tratamento da infecção responsável pela otite média crónica com um antibiótico pode ser suficiente para eliminar a otorreia. Por vezes, apesar dos antibióticos apropriados, a infecção persiste, podendo ser necessária uma intervenção cirúrgica para remover o tecido infectado e para reparar a perfuração do tímpano e qualquer lesão dos ossículos do ouvido. Os colesteatomas geralmente têm de ser removidos cirurgicamente.

Prevenção

Uma das melhores formas de prevenir a otite média crónica consiste em tratar prontamente qualquer infecção do ouvido. Uma criança com problemas crónicos da trompa de Eustáquio pode necessitar da inserção de tubos especiais (tubos de timpanostomia) nos tímpanos para prevenir as infecções recorrentes dos ouvidos, permitindo um fluxo normal de ar no ouvido médio.

Depois de uma infecção ter sido tratada, um tímpano perfurado pode necessitar de ser reparado para prevenir a ocorrência de outra infecção.

Tratamento

A otite média crónica supurativa geralmente é tratada com antibióticos por via oral e com gotas locais de antibiótico. Além disso, o médico deverá proceder a uma aspiração do líquido que está a drenar do ouvido médio do doente. A maior parte das infecções são eliminadas com este tratamento. A presença de um colesteatoma pode causar infecções repetidas, pelo que deve ser removido através de uma intervenção cirúrgica.

O médico pode ainda recomendar uma intervenção cirúrgica para reparar uma perfuração persistente do tímpano. No entanto, em alguns casos, o orifício é deixado aberto, uma vez que, ao funcionar como um tubo de timpanostomia, permite o fluxo de ar através do ouvido médio e previne assim a ocorrência de mais infecções.

Quando uma infecção crónica do ouvido se dissemina para fora do ouvido médio para a mastoide (a porção de osso situada atrás da caixa do tímpano) pode ocorrer uma infecção grave denominada de mastoidite. Os antibióticos administrados por via endovenosa permitem frequentemente eliminar esta infecção, mas pode ser necessária uma intervenção cirúrgica.

Quando contactar o seu médico

Contacte o seu médico imediatamente caso você (ou o seu filho) apresente uma drenagem turva ou com odor fétido de um, ou de ambos os ouvidos, ou se tiver dificuldade em ouvir. Além disso, deve procurar cuidados de emergência se notar o aparecimento de inchaço, dor ou vermelhidão atrás do ouvido, acompanhada de febre, bem como dor intensa ou persistente no ouvido, tonturas, dores de cabeça, confusão mental ou paralisia facial.

Prognóstico

Com um tratamento antibiótico imediato e com uma aspiração do ouvido, o prognóstico é excelente. Cerca de 9 em cada 10 doentes conseguem obter a cura da infecção depois deste tratamento. A cirurgia é geralmente necessária para corrigir uma perfuração persistente do tímpano ou para remover um colesteatoma. Depois desta intervenção cirúrgica, a infecção desaparece quase sempre. A possibilidade de recuperação total da audição depende da extensão da lesão e de uma boa cicatrização do ouvido depois da cirurgia.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial

http://www.sporl.net/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial

http://www.sborl.org.br/conteudo/

Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial

http://www.entnet.org/

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5 Respostas to “Otite média crónica, colesteatoma e mastoidite”

  1. Otite média crónica, colesteatoma e mastoidite « Programa Harvard Medical School – Portugal Says:

    […] o artigo aqui: Otite média crónica, colesteatoma e mastoidite Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like this . Na categoria Doenças, […]

  2. jorge manuel bastos das neves Says:

    Um bom tema/artigo médico, bastante interessante- elucidativo, sintético, informativo e muito útil para os profissionais de saúde e para os doentes; a utilização de imagens completa o assunto descrito.
    Parabéns ao Dr. André Carvalho.

    Jorge Neves (médico especialiste em MGF, ex-assistente graduado sénior de Medicina Geral e Familiar, ex-orientador de formação específica em MGF e do Internato complementar de MGF, ex-director dos centros de saúde de Ponte de Lima e Viana do Castelo.
    Aposentado há 6 meses, mas sempre atento à evolução da medicina em Portugal e no mundo.

  3. simone aparecida Says:

    oi bom dia a minha filha de 14 anos operou o ouvidro esquerdo e ela tem colesteatoma. ocorreu tudo bem ,
    sera que ela vai ter que fazer outra operação? o medico dela não disse nada ele estar satisfeito com o ressultado
    tem 2 messes que ela operou

    • info2hmsportugal Says:

      Cara Simone,
      Estando o Programa consciente e totalmente solidário com o seu pedido de ajuda, a politica editorial do Programa não permite fazer referenciação médica ou emitir segundas opiniões. O objetivo foca-se em dar informação complementar com a melhor base cientifica que não dispensa acompanhamento médico presencial.

      Esperemos que compreenda o nosso posicionamento e esperamos que na informação que produzimos lhe consigamos ser útil.

      Sinceros cumprimentos

  4. Suely Sousa de Oliveira Says:

    Gostei muito do artigo, pois fiz a cirurgia de timpanomastoidectomia no dia 13/04 e estava com dúvidas sobre minha recuperação,porque tenho ciência de que a audição não aumentará,mas ao menos se for bem cicatrizado, ao menos ter uma melhora mínima já me sentirei feliz e no artigo deixa como fundamental a boa cicatrização.
    Parabéns, muito interessante e esclarecedor o artigo.


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