Perigos para a saúde provocados pela radiação de um acidente nuclear.

Autor: Prof. João Lacerda

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O que é?

Radiação é uma forma de energia que pode surgir com a aparência de luz ou de partículas demasiado pequenas para serem visíveis.



A parte visível da luz solar e os sinais transmitidos pela TV e rádio são exemplos de formas de radiação a que estamos expostos diariamente. Este tipo de radiação não é ionizante, o que quer dizer que não tem energia suficiente para induzir a libertação de electrões dos átomos da matéria com que interage.

Em contraste, a radiação nuclear e aquela transmitida pelos raios X são exemplos de radiação ionizante que, em quantidades elevadas, são prejudiciais para os seres vivos. Dos vários tipos de partículas emitidos pela radiação ionizante, os raios gama e os raios X são aqueles que têm maior nível de energia e capacidade de penetração, necessitando de protecções de chumbo para um bloqueio eficaz. Já os raios alfa e beta podem ser travados por folhas finas de papel e de alumínio, respectivamente.


Exposição a Radiação Ionizante
A maior parte dos seres vivos está exposto a uma quantidade de radiação apreciável ao longo da vida, originária de fontes naturais (crosta terrestre, radiação cósmica, …). A radiação basal a que estamos expostos corresponde a uma dose anual entre 1 e 10 mSv. Excepcionalmente, algumas populações têm exposições anuais maiores do que as referidas. Os fumadores também têm uma exposição significativamente maior do que os não fumadores. O limite de radiação permitido para os empregados da indústria nuclear é de cerca de 20 mSv por ano. Pensa-se que o aumento da incidência de doenças oncológicas começa a partir de exposições superiores a 100 mSv por ano.

Radiação Ionizante em Acidentes Nucleares
Após um acidente nuclear, os trabalhadores e as populações limítrofes podem ser expostas a doses de radiação ionizante apreciáveis. A dose momentânea permitida aos trabalhadores na Central de Fukushima no Japão em 2011 é de 250 mSv. O nível de radiação mais elevado captado próximo do reactor 2 de Fukushima foi de 1000 mSv por hora (BBC). Após o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, o critério para recolocação da população previa uma exposição maior do que 350 mSv. 

Efeitos para a Saúde da Exposição a Radiação Ionizante  
Sabe-seque uma única dose de 1000 mSv  (=1Sv=1Gy) causa náuseas e diminuição do número de glóbulos brancos no sangue e que doses únicas de 5000 mSv (=5Gy) são fatais  para 50% dos expostos em cerca de 1 mês (dados da World Nuclear Association).

A monitorização das populações expostas após o lançamento das bombas atómicas e o acidente de Chernobyl permitiu documentar os efeitos a curto e longo prazo da exposição a radiação ionizante. As principais complicações imediatas são ao nível da pele, da orofaringe (inflamação da mucosa), do aparelho gastro-intestinal (diarreia grave e hemorragia) e da medula óssea.

A lesão da pele pode ser significativa após exposição a doses elevadas de radiação, originando um quadro clínico sobreponível a um doente com queimaduras extensas com úlceras cutâneas. Após a exposição, a perda de cabelo (alopécia) e a inflamação das conjuntivas (conjuntivite) também é frequente.

A inflamação das mucosas da orofaringe e do aparelho gastro-intestinal (mucosite), em conjunto com o compromisso da imunidade, predispõe os doentes para infecções bacterianas, fúngicas e virais graves.
A radiação ionizante tem um nível de toxicidade elevado para as células da medula óssea, que são as responsáveis pela produção das células do sangue: os glóbulos vermelhos (que transportam o oxigénio para os tecidos), os glóbulos brancos (que protegem das infecções) e as plaquetas (que são importantes na coagulação). Se a dose de radiação for muito elevada, a depressão da medula óssea é permanente. Em Chernobyl, 13  trabalhadores expostos a doses de radiação que variaram entre 5.6 e 13 Gy receberam de imediato um transplante de medula óssea.
A médio e longo prazo, os sobreviventes da exposição tiveram um aumento de cataratas, úlceras e fibrose (cicatrizes) cutâneas.

A recuperação das defesas imunológicas nos doentes que não necessitaram de transplante de medula foi variável mas, em regra, era completa ao fim de 1 ano. Verificou-se ainda um aumento da incidência de doenças oncológicas, em particular da tiróide. Ao invés do documentado noutras populações expostas a radiação ionizante, não se documentou ainda após o acidente de Chernobyl aumento da incidência de leucemias ou de outros tumores sólidos (com excepção da tiróide). No entanto, esse risco acrescido é bem conhecido após a exposição a radiação nuclear; serão necessárias décadas para avaliar estes riscos adequadamente.

Do mesmo modo, é bem conhecido o efeito da radiação ionizante na alteração da fertilidade e no aumento de malformações congénitas e complicações da gravidez. No entanto, com o distanciamento actual, tal ainda não é evidente após o desastre de Chernobyl.

Finalmente, sabe-se que este tipo de acidentes têm um impacto substancial na saúde mental das populações. De facto, o impacto emocional, económico, de realojamento, entre outros, contribuem de forma importante para o aparecimento de distúrbios mentais. Esta é, na realidade, uma das consequências mais nefastas que perduram na história dos acidentes nucleares.

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