Conhece a Doença de Crohn?

Fonte: 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Drª.Carolina Vaz Macedo

Validação Científica:

Prof. Carla Rolanda

Leia o artigo aqui:

O que é?

A doença de Crohn é uma doença na qual a inflamação lesa os intestinos (doença inflamatória intestinal). Esta patologia começa tipicamente entre os 15 e os 30 anos de idade.

Ninguém sabe com segurança o que desencadeia a inflamação intestinal inicial da doença de Crohn. Pensa-se que o processo patológico pode começar por uma infecção viral ou bacteriana que activa o sistema imunitário de forma persistente, causando inflamação mesmo depois de a infecção ter sido eliminada.

Determinados genes que passam dos pais para os filhos podem aumentar o risco de uma pessoa desenvolver uma doença de Crohn na presença do factor desencadeante adequado.

Uma vez iniciada, a doença de Crohn pode causar sintomas para toda a vida, evoluindo por períodos de agudização e remissão. A mucosa ou revestimento interno e as camadas mais profundas da parede intestinal ficam inflamados, com irritação, aumento de espessura ou erosão em algumas áreas. Este processo leva ao aparecimento de úlceras, fendas e fissuras, sendo que a inflamação pode ainda conduzir ao surgimento de abcessos (bolsas de pús) ou estenoses (zonas de estreitamento intestinal).

As fístulas, que são uma complicação comum da doença de Crohn, são ligações anormais entre órgãos do aparelho digestivo, geralmente entre duas partes do intestino. As fístulas podem surgir depois de a inflamação se ter tornado muito acentuada e penetrar profundamente, atingindo a parede de órgãos adjacentes.

A região terminal do intestino delgado, denominada íleo, é especialmente propensa a ser lesada pela doença de Crohn. O íleo encontra-se localizado no quadrante inferior direito do abdómen. No entanto, as úlceras e a inflamação podem ocorrer em todas as áreas do aparelho digestivo, desde a boca até ao ânus.
Algumas outras zonas do corpo, tais como os olhos e as articulações, podem igualmente ser afectadas pela doença de Crohn.

Manifestações clínicas
Algumas pessoas com doença de Crohn apresentam apenas cólicas ocasionais ou diarreia, sendo os seus sintomas tão ligeiros que nem procuram cuidados médicos.

No entanto, a maior parte das pessoas com doença de Crohn tem sintomas mais incómodos. Podem existir períodos prolongados sem queixas, mas que são interrompidos por acessos de sintomas, denominados de exacerbação. A inflamação reaparece durante uma exacerbação.

Quando a doença de Crohn surge, ou durante uma exacerbação, o doente pode notar:
  • Dores abdominais, geralmente ao nível ou abaixo do umbigo, tipicamente mais acentuadas depois das refeições.
  • Diarreia que pode conter sangue
  • Feridas em volta do ânus
  • Drenagem de pús ou de muco pelo ânus ou da área anal
  • Dor com a defecação
  • Aftas na boca
  • Perda do apetite
  • Dores articulares ou nas costas
  • Dores ou alterações visuais num ou em ambos os olhos
  • Perda de peso apesar da ingestão de uma dieta com um conteúdo normal de calorias
  • Febre
  • Fraqueza ou fadiga
  • Atraso do crescimento e da puberdade nas crianças.
Diagnóstico
Não existe um exame diagnóstico definitivo para a doença de Crohn. Se uma pessoa sofrer desta doença, os sintomas e os resultados de vários exames irão ajustar-se ao longo do tempo a um padrão que será mais adequadamente explicado pela doença de Crohn.

Podem ser necessários meses até que o médico consiga diagnosticar uma doença de Crohn com segurança.
O médico irá procurar evidência de inflamação intestinal e irá tentar distingui-la de outras causas de problemas intestinais, tais como infecção ou colite ulcerosa (doença relacionada com a doença de Crohn que também causa inflamação intestinal).

Os exames que podem revelar evidência de uma doença de Crohn incluem:
  • Análises de sangue. Revelam uma contagem elevada de glóbulos brancos ou outros sinais de inflamação e podem igualmente demonstrar a presença de anemia, isto é, um número reduzido de glóbulos vermelhos e de hemoglobina.
  • Pesquisa de auto-anticorpos. Revela a presença de anticorpos no sangue das pessoas com doença de Crohn, ajudando a distingui-la da colite ulcerosa.
  • Análises das fezes. Incluem a pesquisa de sangue oculto nas fezes, as coproculturas (culturas de fezes) e a pesquisa de ovos, quistos e parasitas. Estas análises:
    • Permitem detectar a presença de pequenas quantidades de sangue devido à irritação dos intestinos.
    • Asseguram que os sintomas não são causados por uma infecção.
  • Radiografia do esófago, estômago e intestino delgado. Neste exame obtêm-se radiografias do abdómen depois de o doente ingerir uma solução com bário, que é opaca aos raios X. À medida que o líquido desce, permite observar o contorno dos intestinos com os raios X. Este exame pode revelar locais no intestino que se encontram estreitados e pode igualmente evidenciar úlceras e fístulas.
  • Colonoscopia e ileoscopia. Estes exames utilizam um tubo flexível com uma câmara acoplada e uma luz. O tubo é introduzido no recto e empurrado até ao íleo terminal, o que permite ao médico visualizar o interior do intestino e colher biópsias se necessário.
  • Biópsia. Há remoção de uma pequena amostra de tecido do revestimento do intestino e o material é examinado num laboratório para identificar a presença de sinais de inflamação. A realização de uma biópsia é muito útil para confirmar uma doença de Crohn e para excluir outras doenças.
Evolução clínica
A doença de Crohn é uma doença para toda a vida, mas não está continuamente activa.

Após uma exacerbação, os sintomas podem manter-se durante semanas ou meses, mas estas exacerbações são frequentemente separadas por meses ou anos de bem estar, sem quaisquer manifestações.

Prevenção
Não existe forma de prevenir a doença de Crohn.
No entanto, o doente pode evitar que esta doença cause muitos prejuízos ao seu corpo. Deve ser mantida uma dieta nutritiva e equilibrada para armazenar vitaminas e nutrientes entre os episódios ou exacerbações. Desta forma, podem ser reduzidas as complicações associadas à desnutrição, tais como a perda de peso e a anemia.
O doente deve também deixar de fumar.

Quando no contexto da doença de Crohn a área inflamada é o intestino grosso pode estar aumentado o risco de cancro do cólon, pelo que o doente deve ser regularmente vigiado no sentido de identificar a presença de alterações cancerosas ou pré-cancerosas. Se a doença de Crohn tiver afectado todo o cólon durante oito anos ou mais (ou, nos casos de doença mais localizada, doze a quinze anos ou mais), o doente deve começar a realizar colonoscopias regulares, com intervalos de um a dois anos.

Tratamento
Os medicamentos, dos quais a maior parte actua reduzindo a inflamação intestinal, são muito eficazes para melhorar os sintomas de doença de Crohn.
Um grupo de medicamentos anti-inflamatórios denominados aminossalicilatos é geralmente experimentado em primeiro lugar. Os aminossalicilatos estão quimicamente relacionados com a aspirina e suprimem a inflamação no intestino e nas articulações. Estes medicamentos são administrados sob a forma de comprimidos (via oral) ou de enemas (via rectal).
Determinados antibióticos ajudam a matar as bactérias nas áreas irritadas do cólon, podendo igualmente diminuir a inflamação.

Os medicamentos antidiarreicos, como a loperamida, podem ser úteis se o doente tiver diarreia mas não infecção.
Outros medicamentos anti-inflamatórios mais potentes como os corticóides podem ser úteis, mas podem igualmente deprimir o sistema imunitário, aumentando o risco de infecções. Por este motivo, estes fármacos não são frequentemente utilizados a longo prazo.

Os medicamentos mais recentemente aprovados para o tratamento da doença de Crohn são os inibidores do factor de necrose tumoral (TNF), como o infliximab e o adalimumab. Estes medicamentos bloqueiam o efeito do TNF, uma substância produzida por células do sistema imunitário que causa inflamação. Os inibidores do TNF podem apresentar efeitos secundários potencialmente graves pelo que, de um modo geral, estes fármacos apenas são prescritos para a doença de Crohn moderada a grave que não está a responder a outras terapêuticas.

A cirurgia para remoção de um segmento do intestino constitui outro tratamento possível. De um modo geral, a cirurgia é recomendada apenas no caso de existir:
  • Obstrução do intestino
  • Sintomatologia persistente apesar da terapêutica médica
  • Uma fístula que não cicatriza.
Quando contactar um médico
O aparecimento de novos sintomas ou a modificação de sintomas que já existiam anteriormente implica, em regra, um tratamento adicional. As pessoas com doença de Crohn devem consultar frequentemente o médico.
Uma complicação grave é a obstrução intestinal, que ocorre quando o intestino fica tão estreitado que o conteúdo intestinal não consegue passar. Esta situação causa vómitos ou dores abdominais intensas e requer tratamento de emergência.
Outras manifestações que requerem a atenção imediata do médico são:
  • Febre, que pode indicar a presença de uma infecção ou abcesso
  • Hemorragia rectal significativa
  • Fezes negras e pastosas.
Prognóstico
A doença de Crohn pode afectar diferentes pessoas de forma muito diversa. Muitas pessoas apresentam apenas sintomas ligeiros e não requerem um tratamento contínuo com medicamentos, enquanto outras requerem múltiplos medicamentos e desenvolvem complicações. A doença de Crohn melhora com o tratamento e não é uma doença fatal, mas não pode ser curada.

A doença de Crohn requer que as pessoas prestem especial atenção às suas necessidades de saúde e procurem cuidados médicos com frequência, mas não impede a maior parte das pessoas de terem empregos normais e uma vida familiar produtiva.

Pode ser útil para uma pessoa com um diagnóstico recente de doença de Crohn a procura de aconselhamento por parte de um grupo de apoio formado por outras pessoas com esta doença.

Informação adicional
Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

Associação Portuguesa de Doença Inflamatória do Intestino

http://www.apdi.org.pt


Alto Comissariado da Saúde
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