Cancro da vesicular biliar e das vias biliares

Fonte:

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Dr. André Carvalho

Validação Científica:

Prof. Luis Costa

O que é?

A vesícula biliar é uma bolsa pequena, em forma de pêra, que se situa por baixo do fígado, na parte superior do abdómen e onde é armazenada a bílis. Este líquido, produzido pelo fígado e armazenado na vesícula ajuda a digerir as gorduras. A vesícula biliar liberta a bílis para o intestino delgado através do colédoco, um tubo fino que liga o fígado e a vesícula biliar ao intestino delgado. O cancro da vesícula biliar e das vias biliares desenvolve-se quando células anormais destas estruturas se multiplicam e crescem rapidamente.

A maior parte dos cancros da vesícula biliar e das vias biliares são adenocarcinomas ― cancros formados a partir das células que revestem as glândulas e os canais. O adenocarcinoma das vias biliares forma-se a partir das glândulas mucosas que revestem estes canais e pode desenvolver-se em qualquer parte deste sistema de drenagem da bílis.

Os cancros da vesícula biliar e das vias biliares são raros, sendo o cancro da vesícula biliar mais comum nas mulheres do que nos homens. As pessoas com cálculos biliares apresentam um risco ligeiramente aumentado de desenvolverem este tipo de cancros, os quais também foram associados a infecções provocadas por um parasita denominado de Fascíola hepática. Estes tumores estão igualmente associados à colangite esclerosante, colite ulcerosa e à cirrose hepática, isto é, às doenças que podem causar inflamação e formação de cicatrizes nas vias biliares, no cólon ou no fígado, respectivamente.

Manifestações clínicas

Numa fase precoce da sua evolução, os cancros da vesícula biliar e das vias biliares podem não causar sinais ou sintomas, não sendo igualmente possível, na maioria das vezes, a sua observação ou palpação durante um exame físico de rotina. Em vez disso, muitos destes cancros são apenas encontrados quando a vesícula biliar é removida como tratamento para a litíase biliar. Não existem exames de rastreio para este tipo de cancro.

Quando ocorrem sinais ou sintomas, estes podem incluir:

  • icterícia (uma coloração amarela da pele e das escleróticas – a parte branca dos olhos)
  • dores ou aumento de volume do abdómen
  • náuseas e/ou vómitos
  • perda do apetite
  • perda de peso sem motivo aparente
  • prurido cutâneo duradouro
  • febre persistente.

A icterícia constitui o sinal mais comum de cancro das vias biliares ocorrendo em cerca de metade das pessoas com cancro da vesícula biliar quando do diagnóstico. Esta alteração da coloração acontece quando o fígado não consegue eliminar a bílis aumentando, deste modo, os níveis de bilirrubina (uma substância química amarelo-escura constituinte da bílis) na corrente sanguínea.

Embora muitas pessoas com cancros da vesícula biliar ou das vias biliares apresentem icterícia, a causa mais comum desta alteração é a hepatite e não o cancro da vesícula ou vias biliares. Outra situação de icterícia não cancerosa frequente é a presença de um cálculo biliar alojado nas vias biliares que impede a bílis de fluir para o intestino delgado.

Diagnóstico

Para este diagnóstico de cancro é fundamental realizar uma história clínica um exame físico rigoroso, com particular incidência para o abdómen, procurando identificar a presença de massas, órgãos aumentados de tamanho, pontos dolorosos ou de acumulação de líquidos. Além disso deverá ser avaliada a pele e os olhos do doente para verificar se existe icterícia, bem como palpar os gânglios linfáticos para verificar se estes estão aumentados de volume.

Em seguida, será importante realizar análises de sangue para dosear os níveis das enzimas hepáticas e da vesícula biliar, bem como da bilirrubina. Uma quantidade excessiva de bilirrubina no sangue pode significar que as vias biliares estão obstruídas ou que existem problemas a nível da vesícula biliar ou do fígado. Por outro lado, um nível elevado de uma enzima denominada fosfatase alcalina pode indicar igualmente a presença de uma obstrução das vias biliares ou uma doença da vesícula biliar. O marcador tumoral denominado CA 19-9 pode também encontrar-se elevada nas pessoas com um cancro das vias biliares.

Porém as análises de sangue não conseguem, por si só, determinar o motivo pelo qual estas substâncias se encontram elevadas. Para isso, o médico pode pedir ao doente que realize um ou mais dos seguintes exames:

  • Ecografia— A ecografia utiliza ondas de ultra-sons para produzir imagens dos órgãos internos. Este exame permite detectar cerca de metade dos cancros da vesícula biliar e pode igualmente ajudar a identificar uma obstrução ou tumor das vias biliares, se este for suficientemente grande para isso.A ecografia pode ser combinada com a endoscopia e com a laparoscopia. Durante a endoscopia, o médico insere um tubo de visualização flexível (um endoscópio) através da boca. Em seguida, introduz o tubo através do estômago na primeira parte do intestino delgado, onde termina a via biliar. A laparoscopia, por seu lado, constitui um tipo de cirurgia limitado que envolve a colocação de um instrumento cirúrgico denominado laparoscópio através de uma pequena incisão efectuada numa zona lateral do corpo. Ambos os procedimentos permitem a colocação do transdutor de ultra-sons próximo da vesícula biliar, permitindo obter imagens mais detalhadas do que com a ecografia padrão.
  • Tomografia computorizada (TAC) — Este exame utiliza um feixe de raios X rotativo para obter imagens transversais detalhadas do corpo. A TAC pode identificar um tumor localizado no interior da vesícula biliar ou que se tenha disseminado para fora desta e pode igualmente ajudar a determinar se o tumor se disseminou para as vias biliares, fígado ou gânglios linfáticos próximos.
  • Ressonância magnética nuclear (RMN) — Este exame permite igualmente criar imagens transversais dos órgãos internos. No entanto, esta técnica imagiológica utiliza ondas de rádio e campos magnéticos potentes em vez de radiações. A RMN pode fornecer imagens mais detalhadas do que a ecografia ou a TAC. Por este motivo, este exame constitui uma forma eficaz de revelar se o tumor se encontra confinado à vesícula biliar ou se invadiu o fígado. Um tipo especial de ressonância magnética nuclear ― a colangiopancreatografia por ressonância magnética ― permite obter imagens que evidenciam as vias biliares, constituindo um dos melhores métodos não invasivos de avaliação das vias biliares.
  • Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) — Neste procedimento, é introduzido um tubo flexível através da garganta, do esófago e do estômago até colédoco, sendo utilizada uma pequena quantidade de um produto de contraste para ajudar a delinear as vias biliares nas imagens obtidas com raios X. Estas imagens podem mostrar se as vias biliares se encontram estreitadas ou obstruídas. A vantagem da CPRE é que pode ser utilizada para obter biópsias de uma área bloqueada e para aliviar a obstrução. Para isso, o médico coloca uma prótese expansiva (um pequeno tubo de rede ou stent) na via biliar para a manter aberta. Por vezes, a inserção desta prótese elimina a necessidade de uma intervenção cirúrgica.
  • Cirurgia — Por vezes tem de ser realizada uma intervenção cirúrgica para determinar a presença de cancro na vesícula biliar ou nas vias biliares.
  • Biópsia — Para confirmar o diagnóstico, deverá ser obtida uma amostra de tecido do tumor ou da massa para posterior exame laboratorial. Pode igualmente ser efectuada uma colheita de bílis para verificar se contém células cancerosas. As amostras de tecidos e de bílis podem ser obtidas durante uma CPRE, através de uma agulha guiada por TAC, raspagem do revestimento dos canais com uma pequena escova ou durante uma intervenção cirúrgica.

Prevenção

Não existe qualquer forma de prevenir os cancros da vesícula biliar ou das vias biliares. No entanto, pode reduzir o seu risco se mantiver um peso saudável e evitar o consumo de tabaco.

A prevenção e o tratamento das infecções provocadas pela Fascíola hepática podem também ajudar a reduzir o risco de cancro das vias biliares. Para isso deve:

  • lavar muito bem ou evitar comer agrião cru ou outros legumes aquáticos, em especial se proveniente de solos irrigados por rios ou adubados com estrume animal
  • cozinhar ou congelar o peixe de água doce proveniente da Ásia antes de o consumir
  • comprar o marisco apenas em lojas de confiança
  • tomar a medicação prescrita no caso de lhe ser diagnosticada uma infecção pela Fascíola hepática.

Se tiver uma doença inflamatória intestinal, tal como uma colite ulcerosa, apresenta um risco aumentado de ter num cancro da vesícula biliar e das vias biliares. Neste caso, o seu médico deverá avaliá-lo para determinar a presença destes cancros durante os exames de rotina.

Tratamento

O tratamento do cancro da vesícula biliar e das vias biliares irá depender:

  • do tipo, localização e extensão do cancro
  • da saúde em geral do doente
  • das probabilidades de curar a doença, de prolongar a vida ou de aliviar os sintomas.

Uma vez que os cancros da vesícula biliar e das vias biliares são raros é aconselhável obter tratamento num centro médico com pessoal especializado no tratamento deste tipo de cancro e, se necessário, solicitar uma segunda opinião médica sobre qual o melhor tratamento a realizar.

A cirurgia constitui o principal tratamento para os cancros da vesícula biliar e das vias biliares. Esta representa a única forma possível de curar a doença, mas as opiniões divergem no que respeita ao ponto em que o cancro avançado continua a ser, ainda assim, curável. Atendendo a que geralmente não existem sinais ou sintomas numa fase precoce da doença, estes cancros encontram-se frequentemente bastante avançados na altura em que são descobertos. A cirurgia para os cancros da vesícula biliar e das vias biliares é difícil. A menos que exista uma evidência clara de que o procedimento irá provavelmente prolongar de forma significativa a vida ou melhorar a qualidade de vida, a cirurgia pode por vezes não ser a melhor opção.

No entanto, a cirurgia pode ajudar a aliviar a dor e a prevenir as complicações. Este tipo de “cirurgia paliativa” inclui a realização de uma derivação biliar, um procedimento que permite restabelecer o fluxo de bílis. O cirurgião pode inserir uma prótese expansiva ou um cateter (tubo) biliar para drenar a bílis para o intestino delgado ou para o exterior do corpo. As próteses biliares podem igualmente ser colocadas através de um endoscópio, sem recurso a uma intervenção cirúrgica.

A radioterapia pode igualmente ser utilizada para tratar os cancros da vesícula biliar e das vias biliares. Existem dois tipos de radioterapia:

  • a radioterapia de feixe externo, na qual se dirigem feixes de raios X para o cancro a partir de um aparelho situado fora do corpo
  • a braquiterapia, na qual se coloca de material radioactivo no interior do corpo, próximo do tumor.

A radioterapia pode ser utilizada depois da cirurgia na tentativa de eliminar quaisquer células cancerosas remanescentes. Se o cancro tiver excessivamente disseminado para poder ser removido de forma completa pela cirurgia, a radioterapia pode constituir a principal forma de tratamento, sem conseguir curar estes cancros.

Nos casos avançados, a radioterapia pode igualmente ser utilizada como terapêutica paliativa com o objectivo de diminuir o tamanho do tumor e assim reduzir a dor e os outros sintomas.

Se um doente tiver um cancro das vias biliares, o médico pode recomendar igualmente a realização de quimioterapia. Este tipo de tratamento envolve a utilização de medicamentos ― tomados por via oral ou injectados numa veia ― para destruir as células cancerosas. A quimioterapia pode ajudar a reduzir o tamanho de um cancro das vias biliares antes da cirurgia e pode igualmente ajudar a controlar os sinais/sintomas quando a cirurgia não se encontra recomendada ou quando o tumor já progrediu apesar dos tratamentos. Porém o cancro da vesícula biliar não responde muito bem à quimioterapia.

Quando contactar o seu médico

Consulte o seu médico se tiver:

  • icterícia
  • prurido persistente
  • dores abdominais persistentes
  • perda de peso sem motivo aparente
  • febre persistente.

Todos estes sinais ou sintomas podem estar relacionados com doenças não cancerosas, mas caso surjam deve sempre consultar o seu médico.

Prognóstico

O prognóstico depende do estado de saúde em geral do doente, do grau de disseminação do cancro e do tipo de tratamento instituído. Nos estádios iniciais dos cancros da vesícula biliar e das vias biliares, quando ainda podem ser submetidos a uma cirurgia, entre 15 e 50% dos doentes sobrevivem pelo menos cinco anos. Quando o tumor se encontra numa fase avançada e a cirurgia já não é possível, a taxa de sobrevivência aos cinco anos é muito menor. Infelizmente, é nesta fase que a maioria dos cancros da vesícula biliar e das vias biliares são diagnosticados.

Informação adicional

Institutos de Oncologia em Portugal

http://www.ipolisboa.min-saude.pt/ (Lisboa)

http://www.ipoporto.min-saude.pt/Homepage (Porto)

http://www.croc.min-saude.pt/ (Coimbra)

Alto Comissariado da Saúde – Coordenação Nacional para as Doenças Oncológicas

http://www.acs.min-saude.pt/cndo/

Liga Portuguesa Contra o Cancro

http://www.ligacontracancro.pt/

Instituto Nacional de Câncer (Brasil)

http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/inca/portal/home/

Organização Europeia do Cancro (ECCO)

http://www.ecco-org.eu/page.aspx/3

Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO)
http://www.cancer.net/portal/site/patient

Sociedade Americana de Gastroenterologia
http://www.gastro.org/

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