Surdez nas crianças

Fonte:

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Maria Inês Pereira

Validação Científica:

Drª Luísa Monteiro

O que é?

Uma criança com uma diminuição da acuidade auditiva tem dificuldade em ouvir sons dentro da amplitude do discurso normal. A surdez pode estar presente aquando do nascimento ou pode desenvolver-se numa fase mais tardia da vida. Os bebés nascidos com outros problemas médicos graves podem apresentar um risco mais elevado de surdez. A maior parte das crianças surdas têm pais com uma audição normal, mas este problema pode ser hereditário.

A diminuição da acuidade auditiva frequentemente não é detectada antes da criança atingir os dois, os três ou mesmo os quatro anos de idade. O período crítico para o desenvolvimento da linguagem situa-se entre o nascimento e os três anos de idade. A incapacidade para identificar a surdez numa idade jovem pode ter implicações graves na fala da criança.

Existem dois tipos importantes de surdez:

  • A surdez de causa central (causada por problemas no Sistema Nervoso Central) envolve problemas com o processamento da informação no cérebro.
  • A surdez de causa periféricarefere-se a problemas com as estruturas do ouvido. Existem três tipos de surdez periférica:
    • A surdez de condução constitui o tipo mais comum nas crianças, sendo geralmente de grau ligeiro ou moderado. Esta situação ocorre quando há um aumento da resistência à transmissão dos sons através do ouvido externo ou do ouvido médio. Este problema pode ser temporário ou permanente e pode ocorrer apenas em um ou em ambos os ouvidos. Por vezes, este tipo de surdez é causado por anomalias físicas que se encontram presentes desde o nascimento. Mais frequentemente, este problema tem início durante a infância em consequência de infecções ou inflamações do ouvido médio (otites médias). Outras causas incluem a perfuração do tímpano, a impactação de cerúmen (acumulação de cera) ou objectos no canal auditivo externo.
    • A surdez sensorioneural é causada por anomalias do ouvido interno (cóclea) ou do nervo auditivo que transmite a informação auditiva para o cérebro. Trata-se de um problema permanente que afecta geralmente ambos os ouvidos. A surdez sensorioneural pode estar presente aquando do nascimento ou pode ocorrer numa fase mais tardia da vida. As causas mais frequentes de surdez presente ao nascer incluem doenças genéticas hereditárias, infecções que podem ocorrer durante a gravidez e também condições que surgem durante ou logo após o nascimento, tais como a extrema prematuridade, muito baixo peso, infecções graves do recém-nascido e medicamentos utilizados para tratar situações muito graves e que podem lesar o ouvido interno do bebé. As causas da surdez sensorioneural adquirida incluem: uma exposição prolongada a ruídos intensos, infecções, traumatismo crânio-encefálico grave, medicamentos tóxicos e algumas doenças hereditárias raras.
    • A surdez mista surge quando a uma surdez sensorioneural (permanente)  se associa uma perturbação do ouvido externo ou do ouvido médio.

O grau de surdez é medido pelo volume dos sons que podem ser ouvidos sem amplificação e pode ser classificada como “borderline” ou mínima, ligeira, moderada, grave ou profunda.

O termo “surdo” é geralmente aplicado a uma pessoa cuja diminuição da acuidade auditiva é tão extensa que não consegue comunicar com outra pessoa utilizando apenas a voz.

Manifestações clínicas

A surdez pode surgir em qualquer idade, sendo frequentemente difícil de detectar, especialmente nas crianças mais jovens.

Em seguida apresentam-se as etapas de desenvolvimento áudio-verbal típicas nas crianças com uma audição normal. Os bebés e as crianças mais jovens com surdez podem não alcançar estes marcos:

  • 0 a 3 meses — A criança pestaneja, mostra-se surpreendida e move-se com os ruídos intensos e mostra-se sossegada com o som da voz dos pais.
  • 4 a 6 meses — A criança vira a cabeça para o lado no sentido das vozes ou de outros ruídos e produz sons musicais (“oh”, “ah”). A criança parece ouvir e, em seguida, responde como se estivesse a ter uma conversa.
  • 7 a 12 meses — A criança vira a cabeça em qualquer direcção no sentido dos sons, palra (“ba,” “ga,” “bababa,” “lalala,” etc.), e diz “mamã,” “papá” (embora não utilize especificamente estas expressões para a mãe e para o pai).
  • 13 a 15 meses — A criança aponta; utiliza “mamã” e “papá” correctamente e cumpre ordens simples.
  • 16 a 18 meses — A criança usa palavras simples.
  • 19 a 24 meses — A criança aponta para partes do corpo quando lhe é pedido, junta duas palavras (“quero bolo”, “cama não”). Metade das palavras da criança é compreendida por estranhos.
  • 25 a 36 meses — A criança usa frases com três a cinco palavras. Três quartos das palavras da criança são compreendidos por estranhos.
  • 37 a 48 meses — Praticamente todo o discurso da criança é compreendido por estranhos.

As indicações da presença de surdez em crianças mais velhas pode incluir:

  • Ouvir televisão ou rádio com um volume de som mais alto do que as outras crianças
  • Sentar-se especialmente perto da televisão quando o volume é adequado para as outras pessoas que se encontram na sala
  • Pedir para que as coisas sejam repetidas
  • Apresentar dificuldades nas actividades escolares
  • Revelar problemas da fala e da linguagem
  • Evidenciar um comportamento inadequado
  • Estar desatento
  • Queixar-se de dificuldade em ouvir ou de obstrução dos ouvidos.

Diagnóstico

A surdez deve ser detectada o mais precocemente possível antes de se notarem atrasos de aquisição de linguagem, sendo recomendado que se sujeitem todos os bebés a rastreio auditivo antes da alta da maternidade. Em países onde não se fazem rastreios ou em casos de surdez de aparecimento tardio esta  é frequentemente descoberta quando uma criança é avaliada para esclarecer a causa de dificuldades de desempenho escolar e perturbações de comunicação e de comportamento. Mesmo uma diminuição ligeira da acuidade auditiva num dos ouvidos pode ter impacto sobre o discurso da criança ou sobre o desenvolvimento da linguagem.

O médico irá fazer perguntas sobre a história clínica da criança, irá proceder a um exame físico e irá avaliar cuidadosamente os ouvidos da criança, procurando identificar a presença de:

  • Deformações do ouvido
  • Problemas ao nível do tímpano (incluindo sinais de infecção do ouvido médio)
  • Acumulação de cerúmen (cera dos ouvidos)
  • Corpos estranhos no ouvido

Podem ser realizados diversos exames para avaliar a diminuição da acuidade auditiva, incluindo:

  • Timpanograma — O timpanograma é um exame que serve para diagnosticar problemas do ouvido médio, em que se mede a pressão do ar nesta porção do ouvido e a capacidade para o tímpano se mover.
  • Audiometria — Este teste é usado para determinar o volume do som que a criança consegue ouvir. A criança escuta sons com diversos volumes e frequências através de auscultadores numa sala à prova de som. É pedido às crianças para responderem a sons através da elevação da mão. Nas crianças mais jovens, a criança responde aos sons jogando um jogo. Nas crianças com menos de dois anos e meio, a audiometria é igualmente utilizada como complemento de outras provas, para estabelecer os níveis de audição presentes. Um observador vigia os movimentos do corpo do bebé ou da criança pequena em resposta aos sons. Este teste não permite determinar qual o ouvido que tem um problema ou se a situação é bilateral (dos dois ouvidos) quando não se utilizam auscultadores mas o som proveniente de colunas calibradas (em campo livre).
  • Resposta auditiva do tronco cerebral (também denominada potencial evocado auditivo do tronco cerebral) — Neste teste são colocados sensores (eléctrodos) ao nível do couro cabeludo e região dos ouvidos  para registar os sinais eléctricos transmitidos pelos nervos envolvidos na audição quando a criança é estimulada por um som teste debitado por auscultadores. Os sinais são estudados para proporcionar informação sobre a audição e a função cerebral relacionada com a audição. Este teste é usado para efectuar o rastreio dos recém-nascidos ou para testar as crianças que não conseguem cooperar com outros métodos. Pode igualmente ser usado para confirmar a diminuição da acuidade auditiva ou para proporcionar informação específica sobre o ouvido após terem sido realizados outros exames de rastreio. Este exame pode ser efectuado durante o sono normal, mas por vezes as crianças mais jovens ou com perturbações do comportamento podem necessitar de sedação (ou anestesia) para a realização deste exame para que os seus movimentos não interfiram com o registo.
  • Emissões otoacústicas — Trata-se de um exame não invasivo relativamente rápido. Uma pequena sonda contendo um microfone e um altifalante  em miniatura é colocada no ouvido. Este capta os sons que são emitidos a partir das células normais do ouvido interno quando estimuladas pela exposição a um som teste. É um exame de rastreio excelente para os recém-nascidos e para os bebés. Se for identificado um problema de audição, este deve ser confirmado através do teste de resposta auditiva do tronco cerebral.

Os testes são efectuados por rotina nos bebés e nas crianças com um risco elevado de surdez. Estas incluem as crianças que apresentam:

  • Atrasos do desenvolvimento, especialmente ao nível da fala
  • Síndromes envolvem a cabeça que se encontram associados a surdez
  • Outros factores de risco, tal como uma história de parto prematuro, de meningite bacteriana ou uma história familiar de surdez

A maioria dos hospitais rastreiam actualmente de forma automática todos os recém-nascidos para a surdez, sendo que, quando o teste de rastreio é positivo, o diagnóstico deve ser confirmado até aos 3 meses de idade.

Evolução clínica

Alguns problemas que causam surdez são permanentes. Outros são temporários. Ainda assim, podem ser necessários diversos meses para o problema desaparecer, requerendo medicação ou até cirurgias.

Prevenção

Muitas causas de surdez podem ser prevenidas ou minimizadas se a pessoa ou o seu filho tomarem as seguintes medidas:

  • Obtenção de cuidados pré-natais adequados (ex: .
  • Obtenção de tratamento apropriado e cuidados de seguimento para as infecções do ouvido médio
  • Evitar ou minimizar a exposição a ruídos intensos. Uma lesão irreversível pode resultar de uma exposição prolongada a sons não muito mais altos do que a fala normal. Este tipo de sons pode ter origem em:Utilizar dispositivos de protecção, tais como protectores dos ouvidos, tampões para os ouvidos de espuma moldável ou pré-moldados quando não é possível evitar a exposição a ruídos intensos.
    • Música alta
    • Fogo-de-artifício
    • Pistola de pressão de ar
    • Armas de fogo
    • Brinquedos que chiam
    • Cortadores de relva e sopradores de folhas
    • Trenós e outros veículos recreativos
    • Equipamentos agrícolas.

Tratamento

Na maior parte dos casos, a criança necessita de ser submetida a uma avaliação completa do desenvolvimento, da fala e da linguagem antes do tratamento ser planeado.

A surdez de condução pode frequentemente ser corrigida. Por exemplo, as infecções do ouvido médio e a acumulação de líquido associada podem ser tratados e a audição da criança pode ser monitorizada. A cirurgia pode ser considerada para o tratamento de alguns problemas.

A surdez sensorioneural pode ser corrigida pela utilização de próteses auditivas que amplificam o som. Eles podem ser adaptados a crianças de qualquer idade, logo após a confirmação do diagnóstico. O tratamento de uma criança antes dos seis meses de idade pode fazer uma diferença enorme no desenvolvimento da linguagem e da fala.

Uma opção de tratamento relativamente nova para a surdez neuro-sensorial grave ou profunda é o implante coclear. Este dispositivo é implantado cirurgicamente no crânio e no ouvido interno e ajuda a traduzir as ondas de som em sinais que podem alcançar o cérebro. Os implantes cocleares estão aprovados para serem usados em crianças com idade igual ou superior a 1-2 anos de idade. Após a cirurgia deverá realizar-se um treino intenso e prolongado com terapeutas da fala e professores especializados que treinem a criança a ouvir e a produzir linguagem.

As crianças com uma surdez significativa podem igualmente aprender Língua Gestual  Portuguesa (LGP) e a leitura dos lábios para comunicar com as outras pessoas.

Cada opção deve ser cuidadosamente considerada e discutida com o médico da criança. A discussão deve tomar em consideração as necessidades da criança, bem como da sua família.

Quando contactar um profissional

Deve contactar o médico se tiver quaisquer preocupações relativamente à possibilidade de um bebé ou uma criança não ouvir normalmente. Isto pode incluir o facto de não estar a alcançar as etapas de desenvolvimento esperadas no que diz respeito à linguagem.

Prognóstico

O prognóstico é melhor se o problema for detectado e tratado precocemente e quanto menor for o grau da perda auditiva.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia – www.sporl.pt

Associação Portuguesa de Audiologia – www.apta.org.pt

Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala – www.aptf.org

Associação Portuguesa de Surdos – www.apsurdos.pt

Federação Mundial de Surdos – www.wfdeaf.org

Associação Portuguesa de Apoio ao Implante Coclear – www.apaic.pt

Ouvir – Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos – www.ouvir.pt

GRISI – Grupo de Rastreio e Intervenção da Surdez Infantil – Av. 5 de Outubro, 68, 8º D -1050 Lisboa

Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia da Cabeça e Pescoço – www.entnet.org

Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial – www.aborlccf.org.br

Uma resposta to “Surdez nas crianças”

  1. Edição da Manhã, Sic Notícias: A surdez infantil pela Drª Luísa Monteiro, Médica Otorrinolaringologista « Programa Harvard Medical School – Portugal Says:

    […] o artigo aqui: A surdez infantil Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like this . Na categoria Doenças, […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: