Diarreia associada aos antibióticos

Fonte: 

Tradão e Edição de Imagem

Científica:

 

Adaptação Científica:

Dr. Nuno Ferreira

Validação Científica:

Prof. Carla Rolanda

O que é?

Nas pessoas saudáveis, vivem no interior do intestino muitas espécies diferentes de bactérias. Um grande número destas são inofensivas ou mesmo úteis para o organismo, mas algumas têm potencial para causarem doença de forma agressiva. Em circunstâncias normais, as bactérias “más” são em muito menor número e o equilíbrio ecológico natural do intestino mantém-nas sob controlo. Esta situação pode ser alterada de forma dramática quando uma pessoa inicia tratamento com um antibiótico. Isto acontece pelo facto dos antibióticos poderem matar um grande número de bactérias normais do intestino, alterando o equilíbrio delicado entre as várias espécies. Na maior parte dos casos, o resultado é apenas um caso ligeiro de diarreia de curta duração que desaparece rapidamente depois do tratamento antibiótico terminar. No entanto, ocasionalmente, um antibiótico elimina um número tão grande de bactérias “boas” e inofensivas que as bactérias “más” agressivas ficam livres para se multiplicarem de forma descontrolada.

Um tipo de bactéria em particular, uma espécie denominada Clostridium difficile (C. difficile), pode proliferar no interior do intestino produzindo substâncias químicas irritantes que lesam a parede intestinal e que podem desencadear uma inflamação do intestino denominada colite. Esta situação pode causar dores abdominais, cólicas, diarreia e febre. Em alguns casos, a diarreia volumosa é tão frequente que a pessoa desenvolve um quadro de desidratação (níveis muito baixos de água no organismo). Uma complicação mais grave da proliferação de C. difficile pode conduzir a um tipo de inflamação intestinal denominada colite pseudomembranosa. Os doentes com colite pseudomembranosa encontram-se em risco de apresentar uma distensão muito acentuada do cólon, o qual deixa de funcionar (megacólon tóxico), o que pode conduzir à ocorrência de uma ruptura na parede do intestino (perfuração intestinal).

Uma vez que o C. difficile vive silenciosamente no intestino de aproximadamente 5% das pessoas, os episódios de diarreia provocada por esta bactéria ocorrem ocasionalmente em adultos e crianças sem outros problemas de saúde que são medicados com antibióticos. No entanto, as infecções pelo C. difficile são muito mais comuns nos indivíduos idosos e nos que sofrem de doenças debilitantes. Nos hospitais e nos lares de terceira idade, o C. difficile pode disseminar-se de doente para doente através das mãos não lavadas dos profissionais de saúde e também através das sanitas, dos lavatórios e de outras superfícies que tenham sido contaminadas com fezes. Segundo alguns estudos, mais de 20% dos doentes nos hospitais e lares de terceira idade apresentam uma colonização intestinal silenciosa pelo C. difficile. Em qualquer destes doentes, o tratamento com um antibiótico é tudo o que é necessário para o C. difficile proliferar e causar doença. Embora muitos tipos diferentes de antibióticos tenham sido responsabilizados pela ocorrência de diarreia e colite causada pelo C. difficile, os antibióticos mais frequemtemente implicados são a clindamicina, a ampicilina e as cefalosporinas.

Manifestações clínicas

Se um doente estiver a tomar um antibiótico, o medicamento irá causar uma alteração ligeira na sua população de bactérias intestinais que pode causar fezes ocasionalmente mais moles ou uma diarreia ligeira durante alguns dias. Estes sintomas devem desaparecer logo que o tratamento com o antibiótico termina.

Se a pessoa apresentar uma alteração mais dramática nas bactérias intestinais e o C. difficile começar a proliferar, os sintomas podem incluir:

  • diarreia aquosa
  • dores abdominais tipo cólica
  • dor à palpação abdominal
  • febre
  • pús ou sangue na diarreia (se a doença progredir para uma colite a C. difficile).

Em alguns casos, a febre e as dores abdominais desenvolvem-se vários dias antes do início da diarreia.

A diarreia causada pela toxina do C. difficile geralmente surge enquanto a pessoa está a tomar um antibiótico, mas a diarreia pode ter início mais tardiamente, começando algumas semanas após o tratamento com o antibiótico ter terminado.

Diagnóstico

Se um doente tiver uma diarreia inexplicada e estiver a tomar antibióticos, deve comunicar ao médico o nome do antibiótico que lhe foi prescrito, a data em que iniciou o tratamento e a data em que os sintomas intestinais surgiram pela primeira vez.

Para avaliar a gravidade da diarreia bem como o risco de desidratação, o médico irá fazer algumas perguntas:

  • quantas dejecções tem por dia?
  • as fezes são semi-sólidas, ligeiramente moles ou muito aquosas?
  • qual a aparência das fezes?
  • existem sinais de desidratação ― boca muito seca, sede intensa, diminuição do débito urinário, fraqueza extrema?
  • O doente apresenta sangue nas fezes?
  • existem sintomas preocupantes adicionais, tais como febre ou dores abdominais?

Na maioria dos casos, o médico pode diagnosticar uma diarreia associada aos antibióticos com base nos sintomas, na história de tratamento com antibióticos e nos resultados do exame objectivo. O médico irá provavelmente suspeitar de uma infecção pelo C. difficile se o doente apresentar sintomas com uma gravidade fora do habitual, se tiver tido alta recentemente dum hospital ou de um lar de terceira idade ou se apresentar:

  • febre superior a 38,3ºC
  • diarreia acentuada (mais de 10 dejecções de fezes aquosas por dia)
  • sinais de desidratação significativa (boca seca, sede intensa, diminuição do débito urinário, fraqueza)
  • fezes contendo sangue ou pus
  • dores abdominais.

A avaliação deste quadro geralmente envolve a análise de uma ou mais amostras de fezes para identificar a presença de uma toxina produzida pelo C. difficile.

Evolução clínica

Se o doente apresentar uma diarreia não complicada associada aos antibióticos, as dejecções irão regressar gradualmente ao normal quando o tratamento antibiótico terminar.

As formas mais graves de diarreia causada pelo C. difficile começam geralmente a desaparecer dentro das primeiras 72 horas de tratamento com medicamentos, embora seja bastante comum uma recorrência temporária da diarreia.

Prevenção

Se estiver a cuidar de uma pessoa que tem diarreia, pode evitar a disseminação de bactérias potencialmente perigosas se tomar as seguintes precauções:

  • lavar as mãos com frequência, especialmente depois de usar a sanita, de mudar as fraldas ou de limpar as arrastadeiras
  • utilizar detergente e lixívia para lavar as roupas que ficaram sujas de fezes
  • limpar as superfícies contaminadas da casa de banho com um produto de limpeza doméstico à base de lixívia.

Tratamento

Nos casos de diarreia ligeira associada aos antibióticos, podem-se experimentar as seguintes sugestões:

  • beber bastantes líquidos para substituir a água do organismo perdida na diarreia. Podem ser consumidos refrigerantes, bebidas desportivas, caldos ou fluidos de rehidratação oral de venda livre
  • evitar temporariamente os lacticínios e os alimentos que contêm farinha de trigo (pão, massa, piza), uma vez que o aparelho digestivo pode estar particularmente sensível a estes produtos durante alguns dias. Evitar também temporariamente os alimentos com um conteúdo elevado de fibras, tais como a fruta, os legumes, o milho e o farelo
  • não tomar medicamentos antidiarreicos sem falar primeiro com o médico. Estes medicamentos podem interferir com a capacidade do intestino para eliminar as bactérias e as toxinas prejudiciais ao organismo através das fezes.

Se um doente apresentar uma diarreia mais grave devido a uma infecção pelo C. difficile, o médico irá provavelmente interromper o tratamento antibiótico e irá prescrever um medicamento antimicrobiano denominado metronidazol (Flagyl) para eliminar o C. difficile. Se o metronidazol não resultar, pode ser utilizado um medicamento alternativo, tal como a vancomicina.

Cerca de 3% das pessoas com uma infecção pelo C. difficile irão ficar gravemente doentes, com febre elevada, dores abdominais intensas e uma complicação denominada megacólon tóxico (cólon dilatado) que poderá ser evidenciado numa radiografia ou tomografia computorizada. Estes doentes devem ser avaliados por um cirurgião. Se o cirurgião estiver preocupado com a possibilidade de ocorrência de uma perfuração intestinal, irá recomendar uma cirurgia de emergência para remover a porção afectada do cólon.

Quando contactar um médico

Consulte prontamente o médico se tiver estado a tomar antibióticos e desenvolver algum dos seguintes sintomas:

  • mais de cinco dejecções de fezes líquidas ou episódios de diarreia por dia
  • diarreia aquosa em grande quantidade
  • febre
  • dores ou hipersensibilidade abdominais
  • sangue ou pús nas fezes.

Prognóstico

De um modo geral, o prognóstico é excelente. Quase todos os adultos com uma diarreia ligeira associada aos antibióticos recuperam completamente sem complicações.

Nas pessoas com uma diarreia a C. difficile mais grave, 15 a 35% irão sofrer uma recorrência da situação dentro de oito semanas após o tratamento com metronidazol ter terminado. Quase todos estes doentes podem ser tratados com sucesso com um segundo período de tratamento medicamentoso.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

http://www.spg.pt/

Direcção Geral de Saúde

Site: http://www.dgs.pt/

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: