Encoprese

Fonte: 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Dr. Hugo Dias

Validação Científica:

Profª Guiomar Oliveira

O que é?

A encoprese é um distúrbio no qual uma criança perde o controlo do esfíncter anal e evacua para a roupa interior. A encoprese surge nas crianças com quatro anos de idade ou mais, altura em que a maior parte já consegue controlar as dejecções. A encoprese é igualmente designada por incontinência fecal e é mais frequente nos rapazes do que nas raparigas.

Na maior parte das crianças, a encoprese encontra-se relacionada com a obstipação crónica. A obstipação é uma situação em que a pessoa não evacua com a frequência normal e, além disso, as fezes são duras e secas.
Para as fezes serem eliminadas, devem acumular-se na parte terminal do intestino (recto), onde distendem a sua parede. Esta sensação de distensão da parede do intestino é que leva a que a pessoa se aperceba de que necessita de evacuar.

No entanto, se a parede intestinal for distendida durante longos períodos sem que as fezes sejam eliminadas, o recto perde o tónus muscular e sensibilidade normais. Assim, torna-se cada vez mais difícil eliminar as fezes duras que se acumulam no recto. Torna-se igualmente mais difícil para a criança saber quando é que as fezes estão prontas a ser eliminadas.

À medida que são formadas novas fezes pelos intestinos, estas passam em volta da massa volumosa de fezes duras. Estas fezes saem do recto e sujam a roupa interior da criança. Em quase todas as crianças com encoprese secundária a uma obstipação, esta situação não é voluntária. De facto, muitas crianças nem sequer têm consciência de que as fezes saíram.
A obstipação crónica que evolui para encoprese pode ter muitas causas diferentes, incluindo:

  • Tensão e ansiedade devido a problemas durante o treino da continência
  • Uma dieta com um teor baixo de fibras, as quais se encontram nos seguintes alimentos:
    • fruta
    • vegetais
    • cereais integrais
  •  Uma dieta com um teor elevado de alimentos que tendem a causar obstipação, tais como:
    • leite gordo
    • queijo
    • arroz branco
    • pão branco
  • Ingestão de líquidos em quantidade insuficiente
  • Um estilo de vida sedentário, com pouco exercício físico (o exercício estimula a motilidade intestinal)
  • Medo e ansiedade por usar uma casa de banho que não é familiar (por exemplo, na escola)
  •  Não prestar atenção à necessidade (vontade) de evacuar: algumas crianças não vão à casa de banho quanto têm vontade de o fazer. Podem estar demasiado ocupadas a brincar, a ver televisão ou a realizar qualquer outra actividade absorvente. Na escola, podem ter receio de pedir autorização para sair da aula para ir à casa de banho.
  •  Uma fissura. Quando uma criança com obstipação finalmente evacua, as fezes anormalmente volumosas e duras podem lesar a mucosa do ânus, produzindo uma rasgadura dolorosa da mucosa denominada fissura. Em consequência desta fissura dolorosa, a criança pode ficar progressivamente mais ansiosa relativamente a evacuar por ter receio das dores.
  • •    Hipotiroidismo. Os níveis baixos de hormonas tiroideias podem fazer com que o aparelho digestivo da criança funcione mais lentamente do que o normal, o que pode conduzir à obstipação.

Independentemente da causa inicial da obstipação crónica da criança, o resultado final é o mesmo. Uma grande massa de fezes acumula-se e distende o recto até este órgão perder o seu tónus e sensibilidade. Isto faz com que seja mais difícil para o recto a eliminação das fezes, conduzindo a uma acumulação ainda maior destas.

Este ciclo vicioso pouco saudável apenas pode ser quebrado quando o intestino é completamente limpo de fezes. Nessa altura, o intestino pode retomar o seu tamanho normal e a criança pode aprender evacuar de forma mais regular.

Em casos raros, a encoprese está relacionada com:

  • Problemas médicos que envolvem os nervos na medula espinhal ou na parede abdominal
  • Problemas psicológicos, tais como:
    • comportamento anormalmente impulsivo
    • sofrimento pela morte de uma pessoa próxima
    • algum outro factor de stress ou história de traumatismo.

Manifestações clínicas

Na maior parte das crianças com encoprese, os sinais mais óbvios são os seguintes:

  • Roupa interior suja de fezes
  • Odor corporal desagradável (cheiro a fezes)

Outros sinais e sintomas podem incluir:

  • Períodos de obstipação (ausência de dejecções) alternando com dejecções muito abundantes
  • Raios de sangue no exterior das fezes ou no papel higiénico utilizado depois de evacuar
  • Dores nos quadrantes inferiores do abdómen ou no recto
  • Vestuário sujo de fezes escondido nos armários, debaixo da cama ou noutros locais
  • Enurese nocturna (incontinência urinária nocturna), provavelmente relacionada com a pressão exercida por uma grande massa de fezes (fecaloma) no recto.

Em casos mais raros, quando a encoprese é causada por problemas psicológicos, a criança pode espalhar fezes pelo chão, pelas paredes ou pela mobília.

Diagnóstico

O médico irá começar por fazer perguntas sobre os hábitos intestinais da criança, incluindo:

  • A frequência com que evacua
  • As dimensões das dejecções
  • Se a camada exterior das fezes já se apresentou raiada de sangue.

O médico irá fazer perguntas sobre a dieta da criança, especialmente sobre:

  • Os alimentos que tendem a causar obstipação:
    • Leite e outros lacticínios, arroz branco, pão branco
  • Os alimentos com teor elevado de fibras, que ajudam a manter as fezes moles:
  • Fruta, vegetais, cereais integrais.

Alguns médicos pedem aos pais para elaborarem um diário da dieta e dos hábitos intestinais da criança durante uma semana. Isto pode ajudar a compreender a melhor forma de tratar a criança. O médico irá igualmente querer conhecer quaisquer situações de stress fora do habitual na vida da criança, tanto em casa como na escola.

O médico irá examinar a criança e irá procurar identificar anomalias físicas no seu abdómen, na área genital ou na porção inferior da coluna e pode igualmente examinar o recto para procurar fissuras ou outras anomalias. O médico pode ainda avaliar a quantidade de fezes que se encontram no recto.

Na maior parte dos casos, o médico pode diagnosticar a encoprese com base nos seguintes factores:

  • Idade
  • História e sintomas de obstipação crónica
  • Exame objectivo.

De um modo geral, não são necessários exames adicionais. Por vezes, é realizada uma radiografia simples do abdómen para verificar a quantidade de fezes acumuladas.

Se o médico pensar que o problema pode estar relacionado com anomalias no aparelho digestivo da criança, pode pedir exames adicionais. Estes podem incluir um exame radiológico denominado clister opaco ou um procedimento designado por biópsia rectal.

Numa biópsia, é removida um pequeno fragmento de tecido do recto para ser examinado num laboratório.

Se a criança apresentar sinais de hipotiroidismo, o médico pode pedir análises de sangue para medir os níveis das hormonas tiroideias.

Evolução clínica

Com tratamento, a maior parte das crianças irá recuperar da encoprese. A duração do tratamento varia, dependendo da criança e das circunstâncias. Praticamente todas as crianças deixam de apresentar incontinência fecal quando atingem o meio da adolescência.

Prevenção

Para ajudar a prevenir a encoprese causada pela obstipação crónica, podem tomar-se as seguintes medidas:

  • Aumentar a quantidade de fibras na dieta da criança, proporcionando-lhe fruta, vegetais e cereais integrais com abundância.
  • Certificar-se de que a criança bebe bastantes líquidos ― de preferência água ― ao longo do dia.
  • Sentar a criança na sanita durante 10 a 15 minutos duas vezes por dia, às mesmas horas todos os dias. A criança deve igualmente sentar-se na sanita 10 a 15 minutos depois de cada refeição.
  • Manter a criança activa. O exercício ajuda a aumentar a motilidade dos intestinos, de forma que as fezes são movimentadas de forma mais fácil e rápida.
  • Encorajar e felicitar a criança pelo seu sucesso em manter-se “limpa” durante o dia. Nunca a castigar, envergonhar ou culpar.
  • Falar com o médico antes de administrar à criança clisteres ou supositórios rectais. Evitar igualmente usar laxantes diariamente, a menos que faça parte do plano de tratamento.

Lembre-se que, mesmo depois da criança estar totalmente treinada no uso da sanita, irão ainda acontecer alguns acidentes ocasionais. É importante que permaneça calmo e despreocupado enquanto muda as roupas sujas da criança. Não deve mostrar descontentamento, desapontamento ou frustração em relação à criança.

Tratamento

Se a criança tiver encoprese devido a uma obstipação crónica, o tratamento é um processo em três etapas que envolve:

  • Eliminar do intestino o fecaloma. Através da utilização de medicamentos (laxantes) tomados por via oral. Por vezes, é necessário utilizar clisteres ou supositórios rectais.
  • Prevenir a recorrência da obstipação. Durante seis meses ou mais, a criança pode necessitar de tomar um medicamento para tornar as fezes mais moles para que sejam eliminadas mais facilmente. Alguns exemplos deste tipo de laxantes são a lactulose e o óleo mineral. Pode demorar algumas semanas ou mesmo meses de esvaziamento regular do intestino até que o intestino dilatado volte ao tamanho normal e recupere o tónus muscular normal.
  • Ensinar hábitos intestinais normais. A criança irá necessitar de se sentar na sanita durante 10 a 15 minutos com intervalos regulares durante o dia, incluindo no final de cada refeição. Isto irá permitir aos músculos responderem normalmente à vontade de evacuar.

O médico pode igualmente sugerir que a criança seja motivada. Um exemplo é usar um “sistema de recompensa simbólico” que envolve usar um gráfico colorido para acompanhar os progressos do seu filho. É concedido uma estrela ou autocolante dourado por cada dia “limpo”. Quando o gráfico se encontra preenchido, a criança ganha algum tipo de recompensa.

Se a criança apresentar encoprese devido a um problema neurológico ou de desenvolvimento que envolve o aparelho digestivo, o médico irá referenciá-la para um especialista (neurologista ou gastroenterologista) para receber tratamento.

Se a encoprese da criança parecer estar relacionada com problemas psicológicos, o médico poderá referenciá-la para um pedopsiquiatra ou para outro profissional de saúde mental.

Quando contactar um médico

Consulte o médico se o seu filho tiver mais de quatro anos de idade e sujar consistentemente as roupas com fezes. Deve consultar igualmente o médico se o seu filho tiver começado a sujar a roupa com fezes depois de se manter continente durante vários meses ou anos. Finalmente, consulte o médico se o seu filho apresentar frequentemente obstipação, mesmo que não tenha encoprese.

Consulte o médico imediatamente se a criança começar intencionalmente a deixar cair ou espalhar fezes por todo o lado, incluindo no domicílio ou na escola.

Prognóstico

A maior parte das crianças com encoprese ultrapassa o problema ou responde ao tratamento. O tratamento pode envolver alterações na dieta, medicação e terapêutica motivacional.
Quando a encoprese se encontra relacionada com problemas psicológicos ou emocionais, o tratamento pode ser mais prolongado.

Informação adicional

Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral
http://www.apmcg.pt

Sociedade Portuguesa de Pediatria
http://www.spp.pt/

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