O que fazer se o meu filho for obeso?

"Uma abordagem à obesidade infantil"

A obesidade infantil deve ser tratada o quanto antes. Em primeiro lugar, porque muitas das complicações associadas à obesidade, como a tensão alta e a diabetes, podem surgir em idades muito jovens. Depois, porque o risco de a obesidade se manter até à idade adulta é muito elevado.

O tratamento da obesidade infantil deverá sempre envolver o acompanhamento de um médico e de outros profissionais de saúde. Contudo, pode ser muito importante para os pais e outros cuidadores de crianças com excesso de peso ou obesidade saber do que consiste, quais os objetivos, possíveis dificuldades, e resultados esperados do tratamento. Assim, poderão compreender melhor as orientações recebidas e terão mais facilidade em colaborar em todo o processo. Confira a seguir!

Princípios gerais do tratamento da obesidade infantil

O tratamento da obesidade infantil foca-se nas mudanças de hábitos de alimentação, atividade física e sono e não no peso da criança.

As mudanças de hábitos são muito difíceis de alcançar e manter. Para as conseguir é essencial que todas as pessoas importantes da vida da criança estejam envolvidas, principalmente através do exemplo. Para a criança, aquilo que um adulto faz é muito mais importante do que aquilo que diz. Será muito difícil para a criança aceitar, por exemplo, que não deve petiscar fora das refeições se as outras pessoas a sua volta, como pais, amigos e educadores, o fazem frequentemente. Assim, as mudanças de hábitos devem ser seguidas por todos, independentemente de terem excesso de peso.

Os pais têm um papel fundamental no tratamento da obesidade da criança. Devem ter a noção de que é um tratamento longo, que vai exigir muita determinação e motivação e vai estar sujeito a altos e baixos. Muitas das medidas a serem tomadas devem manter-se durante toda a vida. Isso é, certamente, um enorme desafio.

É importante lembrar que o tratamento da obesidade infantil nunca deve ser iniciado nem continuado sem a devida avaliação e o acompanhamento médico. Devido à sua complexidade, pode ser importante o envolvimento de outros profissionais especializados como enfermeiros, nutricionistas ou dietistas, psicólogos e especialistas em desenvolvimento e atividade física.

Objetivos do tratamento

Contrariamente ao que se passa com o adulto, o tratamento da obesidade na criança raramente tem como objetivo a perda de peso. Pretende-se que a criança cresça em altura e que mantenha o peso ou, pelo menos, aumente pouco. Para isso, a criança deve consumir um pouco menos de energia através dos alimentos do que aquela que gasta com o seu crescimento, com o seu metabolismo e com as suas atividades diárias. É um processo lento, que pode durar um ou mais anos.

Somente em alguns casos mais graves é recomendada uma restrição um pouco maior da alimentação. Restrições alimentares severas não são recomendadas.

O que se pretende ao intervir durante a infância é educar!

Principais medidas a serem seguidas no tratamento da obesidade infantil

O tratamento da obesidade infantil vai dirigir-se a diversas áreas. As medidas específicas a tomar serão estabelecidas em conjunto com a equipa de saúde que acompanha a criança. Em seguida, descrevemos algumas medidas que habitualmente fazem parte do tratamento da obesidade infantil.

Medidas relacionadas com a alimentação

Relativamente à alimentação, o que se pretende é educar e dar condições para escolhas alimentares mais saudáveis.

Algumas medidas simples podem fazer toda a diferença.

  • Ter sempre em casa alimentos saudáveis, nomeadamente frutas e vegetais, e incentivar o seu consumo;
  • Estabelecer rotinas de refeições como, por exemplo, 3 refeições e 2 lanches;
  • Seguir a regra dos 3S para as refeições: Sentado, Sossegado e Sociável;
  • Procurar reconhecer e respeitar os sinais de que a criança tem fome ou já está satisfeita, e incentivar que ela também o faça;
  • Privilegiar as refeições em família, que devem ser um momento agradável de convívio. Nada de televisão à hora das refeições;
  • Oferecer refeições saudáveis, com alimentos variados dos diversos grupos de alimentos e segundo as porções que serão estabelecidas em conjunto com os profissionais de saúde;
  • Não ter disponíveis em casa bolos, doces, chocolates, salgadinhos e outros alimentos ricos em açúcar e gordura e de baixo valor nutritivo;
  • Reduzir o consumo de bebidas açucaradas, como refrigerantes, sumos e néctares de fruta e leites aromatizados;
  • Incentivar o consumo de água;
  • Evitar que a criança coma entre as refeições e oferecer frutas ou vegetais se a criança manifestar fome entre as refeições;
  • Não obrigar a criança a comer alimentos saudáveis que ela se negue a comer. Mantê-los na alimentação da família e dar o exemplo é a melhor forma de incentivar a criança a apreciá-los;
  • Evitar alimentar a criança durante a noite. Muitas vezes é possível utilizar outros meios para confortar a criança e quebrar o hábito de comer durante a noite.

Medidas relacionadas com a atividade física

As crianças obesas estão habituadas a grandes quantidades de alimentos e é comum que tenham alguma dificuldade em colaborar para o cumprimento do plano alimentar do tratamento da obesidade. Assim, aumentar o nível de atividade física da criança obesa é fundamental para o tratamento.

A atividade física estruturada, ou seja, conduzida por profissionais competentes pode ser bastante benéfica, principalmente a partir dos 3 anos de idade. Mas é fundamental que a criança demonstre interesse e satisfação. Muitas vezes, as crianças obesas são pouco dotadas para certos desportos e cansam-se facilmente. Isso pode desmotivá-las. Os pais devem ter sempre isso em consideração e devem recorrer à ajuda de profissionais da área do desporto.

O melhor exercício para as crianças pode ser a atividade física espontânea, ou seja, brincar ativamente: correr, saltar, jogar à bola… Atualmente é comum que as crianças fiquem privadas destas atividades por não terem espaço em casa, por terem que passar horas em carrinhos e cadeiras, por não terem oportunidades para brincar fora de casa, ou simplesmente porque preferem ver televisão ou jogar videojogos.

É importante que a atividade física faça parte do dia a dia da criança e que a criança aprenda a gostar de uma vida ativa. Algumas medidas são importantes para que isso aconteça:

  • Garantir que a criança tem todos os dias oportunidades para brincar de forma ativa durante pelo menos duas horas;
  • Limitar o tempo passado em atividades sedentárias como estar no carrinho de passeio ou na cadeira do carro, ver televisão e jogar videojogos;
  • Incentivar brincadeiras ativas disponibilizando espaços seguros, brinquedos e oportunidades para brincar dentro e fora de casa;
  • Promover oportunidades de movimento com as atividades do dia a dia, como ir a pé para a escola, subir as escadas, ajudar nas tarefas de casa;
  • Promover momentos agradáveis de brincadeiras e atividade física em família dentro e fora de casa, onde se demonstre o prazer de brincar com a criança;
  • Levar a criança a conhecer e, caso deseje, praticar alguma atividade física estruturada: natação, dança, ginástica, ballet, futebol, ou outra modalidade que desperte o interesse da criança;
  • Demonstrar interesse pela atividade que a criança realiza, incentivá-la nas suas falhas e elogiá-la nas conquistas.

Medidas relacionadas com o sono

Existe uma relação entre o número de horas que a criança dorme e o risco de desenvolver obesidade. Como parte do tratamento da obesidade é importante assegurar que a criança durma de forma adequada ao seu desenvolvimento. No Quadro 1 poderá encontrar informações acerca das horas de sono recomendadas para crianças dos 0 aos 5 anos.

Quadro1: Horas de sono recomendadas para crianças dos 0 aos 5 anos

IDADE HORAS DE SONO RECOMENDADAS
❤ MESES 10,5 a 18 horas por dia
3 – 12 MESES 9 a 12 horas durante a noite + 1 a 4 sestas de 30 minutos a 2 horas durante o dia
1-3 ANOS 10 a 12 horas durante a noite + 1 a 2 horas durante o dia
3-5 ANOS 11 a 13 horas durante a noite. Pode dormir sesta ou não.

Medidas relacionadas com os pais

Os comportamentos dos pais e de outros membros da família influenciam muito os comportamentos da criança. Assim, para além das medidas relacionadas com a alimentação, a atividade física e o sono da criança, que são de responsabilidade dos pais, os pais devem procurar:

  • Aumentar os seus conhecimentos acerca da alimentação saudável;
  • Servir de exemplo para um estilo de vida saudável;
  • Incentivar que outros membros da família também o façam.

Medidas relacionadas com outros cuidadores e instituições (amas ou outros em instituições como creches e jardins de infância)

Tal como acontece com os pais e a família, os comportamentos de outros cuidadores e dos amigos também influenciam os comportamentos da criança. São também estes cuidadores que vão proporcionar à criança um ambiente que valoriza e promove hábitos saudáveis de alimentação, atividade física e sono.

Os pais devem procurar o apoio dos responsáveis pelos cuidados do seu filho para ajudarem no tratamento. Este apoio pode ser dado através de medidas semelhantes às descritas acima.

Mais uma vez é importante lembrar que o foco de todas estas mudanças nunca deve ser a criança obesa e sim uma vida mais saudável para todos. 

Resultados do tratamento

Tratar a obesidade não é tarefa fácil. Os resultados, na maioria dos casos, são insatisfatórios, quer pelo fracasso nas tentativas de mudança de hábitos, quer pelo retorno da obesidade a médio ou longo prazo.

No caso de crianças pequenas, pode ser mais fácil pôr em prática o plano de tratamento, uma vez que as crianças estão mais dependentes dos pais. Além disso, o crescimento favorece a adequação do peso. Pode então haver a ilusão de que o problema está resolvido. Mas a obesidade é uma doença crónica, que exige controlo durante toda a vida. Se as medidas tomadas durante o tratamento não forem mantidas a longo prazo o problema tenderá a regressar.

Se tem um filho com excesso de peso ou obesidade procure agir o quanto antes. Siga as recomendações dos profissionais de saúde e aproveite as informações, dicas e conselhos práticos que o projeto Papa Bem preparou para ajudar os pais na missão de promover um crescimento saudável dos seus filhos dos 0 aos 5 anos.

Conteúdo produzido no âmbito do projeto de produção de Informação do Programa Harvard Medical School-Portugal “Papa Bem: uma abordagem à obesidade infantil”

Este trabalho é cofinanciado através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, QREN E COMPETE

Investigadora principal:

Profª Isabel Loureiro

Investigadora:

Drª. Gisele Câmara

Investigadora:

Drª Graciete Bragança

Investigadora:

Drª Ana Rita Goes

Investigadora:

Drª Ana Rito

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: