O que é o Acidente vascular cerebral (AVC)?

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Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Drª. Ana Correia

Validação Científica:

Drª. Filipa Falcão


Leia o artigo aqui:

O que é?

O acidente vascular cerebral (AVC) é uma lesão do cérebro que ocorre devido a uma interrupção do fornecimento de sangue a este órgão. Em Portugal constitui a principal causa de morte e de incapacidade permanente.

A irrigação sanguínea do cérebro pode ser perturbada por diferentes razões. Os médicos geralmente classificam os acidentes vasculares cerebrais em hemorrágicos e isquémicos. De uma forma simplificada, os AVCs isquémicos podem ser divididos em trombóticos ou embólicos.

Acidente vascular cerebral hemorrágico

Este tipo de acidente vascular cerebral é causado por uma hemorragia, que pode ocorrer dentro do cérebro (hemorragia intracerebral) ou entre este órgão e o crânio (hemorragia subaracnoideia). Quando ocorre uma hemorragia, os vasos sanguíneos de pequeno calibre próximo da hemorragia contraem-se e, consequentemente, algumas áreas cerebrais recebem uma quantidade insuficiente de sangue. Além disso o sangue pode comprimir as estruturas nervosas adjacentes.

A hemorragia intracerebral encontra-se frequentemente associada a uma pressão arterial elevada (hipertensão arterial), à idade avançada, ao consumo excessivo de álcool ou à utilização de cocaína ou de anfetaminas. A hemorragia cerebral ocorre geralmente por rotura de pequenas artérias ou de malformações dos vasos sanguíneos. Por lado, a hemorragia subaracnoideia (entre o cérebro e o crânio) é geralmente causada pela rotura de um aneurisma cerebral. Os acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos são menos frequentes que os isquémicos.

Acidente vascular cerebral trombótico

No AVC trombótico, um coágulo (trombo) forma-se no interior de uma das artérias cerebrais, bloqueando o fluxo de sangue. Isto acontece geralmente no interior de uma artéria que se encontra estreitada pela aterosclerose, que consiste na acumulação de depósitos de gordura na parede dos vasos sanguíneos.

Os AVCs trombóticos constituem o tipo mais comum de acidente vascular cerebral e correspondem a praticamente metade dos casos desta doença. Podem afectar artérias de grande ou de pequeno calibre no cérebro. Quando ocorre um acidente vascular cerebral trombótico numa artéria de pequeno calibre, situada numa zona profunda do cérebro, o AVC é denominado lacunar.

Acidente vascular cerebral embólico

Num acidente vascular cerebral embólico, um coágulo de sangue ou outra massa sólida circula até ao cérebro onde bloqueia uma artéria cerebral. Em muitos casos um coágulo de sangue flutuante, denominado êmbolo, tem origem no interior do coração. Noutro tipo de acidente vascular cerebral embólico, os êmbolos são constituídos por um agregado de bactérias e de células inflamatórias. Este tipo de êmbolo pode formar-se se existir uma infecção bacteriana nas válvulas do coração (endocardite).

Em alguns casos não é possível determinar o tipo de acidente vascular cerebral.

Manifestações clínicas

Diferentes áreas do cérebro são responsáveis por diferentes funções, incluindo a sensibilidade, o movimento, a visão, a fala, o equilíbrio e a coordenação.

As manifestações clínicas de acidente vascular cerebral variam, dependendo da área do cérebro que se encontra lesada, podendo incluir:

  • dores de cabeça com ou sem vómitos
  • tonturas, confusão mental
  • fraqueza ou paralisia de um dos lados do corpo
  • entorpecimento súbito e acentuado de qualquer parte do corpo
  • assimetria facial
  • perturbações visuais, incluindo uma perda súbita de visão
  • dificuldades da marcha, incluindo uma marcha cambaleante ou instável
  • problemas de coordenação nos braços e nas mãos
  • discurso arrastado ou incapacidade para falar
  • desvio súbito dos olhos numa direcção
  • convulsões (crises epilépticas)
  • respiração irregular
  • estupor, coma

O aparecimento súbito de uma ou mais destas manifestações constitui um sinal de alerta de que pode estar a ocorrer um acidente vascular cerebral.

Em alguns casos, os acidentes vasculares cerebrais são precedidos por um ou mais acidentes isquémicos transitórios (AITs), que constituem episódios breves de manifestações semelhantes às de um acidente vascular cerebral. Os AITs duram menos de 24 horas e, mais frequentemente, apenas 5 a 20 minutos.

Diagnóstico

O médico irá avaliar a história clínica do doente e os seus factores de risco para o acidente vascular cerebral, incluindo:

  • sexo, idade e etnia
  • pressão arterial elevada (hipertensão arterial)
  • diabetes
  • colesterol total elevado e colesterol HDL baixo
  • obesidade e sedentarismo
  • determinados tipos de doença cardíaca (por exemplo, fibrilhação auricular, estenose mitral, miocardiopatia dilatada, prótese valvular mecânica)
  • história familiar de acidente vascular cerebral
  • tabagismo
  • alcoolismo

O médico irá examinar o doente, prestando particular atenção à pressão arterial e ao coração. O médico irá realizar também o exame neurológico para verificar se existem alterações nas funções cerebrais.

Para diagnosticar e classificar o acidente vascular cerebral, o médico irá requisitar um exame imagiológico do cérebro, que pode incluir os seguintes:

  • Tomografia computorizada (TC).
  • Ressonância magnética nuclear (RMN). A RMN utiliza campos magnéticos para detectar a presença de alterações no tecido cerebral e pode proporcionar um diagnóstico mais precoce e mais preciso do acidente vascular cerebral em comparação com a TC. Contudo, este exame não está disponível em todos os hospitais e é mais dispendioso.

Se o médico suspeitar de uma hemorragia subaracnoideia como causa do AVC, pode realizar uma punção lombar (na qual é inserida uma agulha no espaço entre as vértebras lombares) para avaliar a presença de sangue no líquido cefalorraquidiano (líquido que envolve o cérebro e a medula). Outros exames imagiológicos, tais como o eco-Doppler transcraniano ou a angiografia por RMN ou por TC, podem ser utilizados para avaliar o fluxo sanguíneo cerebral.

A avaliação  do doente irá incluir também exames para identificar a causa do AVC, nomeadamente um electrocardiograma (ECG), análises de sangue (incluindo contagem das células sanguíneas, glicémia, função renal, electrólitos e avaliação da coagulação e das gorduras no sangue). O doente pode realizar também uma ecografia das artérias do pescoço (eco-Doppler carotídeo e vertebral), sobretudo no AVC trombótico. Em caso de suspeita de AVC embólico, pode ser realizado um ecocardiograma (ecografia do coração) e um Holter (electrocardiograma de 24 horas).

Evolução Clínica

Se a circulação cerebral for rapidamente restabelecida, as manifestações clínicas podem melhorar dentro de poucos dias. No entanto, se a irrigação sanguínea estiver interrompida durante períodos mais prolongados, a lesão cerebral pode ser mais grave e as manifestações podem persistir durante muitos meses, podendo ser necessária reabilitação física.

Uma lesão cerebral permanente pode causar uma deficiência permanente. Algumas pessoas, especialmente as que sofrem um acidente vascular cerebral hemorrágico de grandes dimensões, podem morrer.

Prevenção

A prevenção do acidente vascular cerebral incide no controlo dos factores de risco vascular, incluindo:

  • pressão arterial elevada (hipertensão arterial)
  • ritmo cardíaco anormal (fibrilhação auricular)
  • colesterol elevado
  • diabetes
  • tabagismo.

Um estilo de vida saudável é essencial. Para ajudar a prevenir o acidente vascular cerebral, as pessoas devem fazer exercício físico regularmente e manter uma dieta saudável:

  • rica em fruta e vegetais
  • com um conteúdo baixo de gorduras saturadas, de gorduras trans e de colesterol
  • com pelo menos duas a quatro doses de peixe por semana
  • sem um consumo excessivo de álcool.

Alguns medicamentos que tratam a pressão arterial elevada são especialmente benéficos na prevenção do acidente vascular cerebral. Estes incluem os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECA) e os diuréticos tiazídicos.

Se o doente tiver (ou se já tiver tido) fibrilhação auricular (doença em que o ritmo cardíaco é irregular), a administração de varfarina, que é um medicamento anticoagulante, pode reduzir grandemente o risco de acidente vascular cerebral. A varfarina previne a formação de coágulos de sangue no interior do coração, que podem desalojar-se e provocar um acidente vascular cerebral embólico.

O colesterol elevado também deve ser tratado de forma agressiva. As estatinas (medicamentos para reduzir o colesterol) podem ajudar a prevenir os acidentes vasculares cerebrais.

Além disso, as pessoas não devem consumir cocaína ou anfetaminas porque estas substâncias, além de outros malefícios, podem causar acidentes vasculares cerebrais.

A administração diária de aspirina (ou ácido acetilsalicílico) é uma medida preventiva importante em doentes com factores de risco para AVC. A aspirina em doses de apenas 80 mg por dia pode reduzir o risco de acidente vascular cerebral. No entanto, deve ter-se em atenção que a aspirina diária pode aumentar ligeiramente o risco de acidente vascular cerebral hemorrágico. Existem outros medicamentos antiagregantes plaquetários que também podem ajudar a prevenir o AVC isquémico. No entanto, estes medicamentos (incluindo a aspirina) não são seguros para todas as pessoas e a sua utilização deve ser sempre orientada pelo médico.

Tratamento

É importante que as pessoas estejam alertadas para as manifestações clínicas de acidente vascular cerebral e que procurem imediatamente cuidados de emergência se eles surgirem. Assim, em caso de falta de força num braço, boca ao lado ou dificuldade em falar, telefone imediatamente para o 112 para ser encaminhado para o hospital mais indicado, o mais rapidamente possível.

O médico irá procurar, em primeiro lugar, determinar se o acidente vascular cerebral é causado por um coágulo ou por uma hemorragia. Com base nesta informação, irá iniciar o tratamento apropriado.

Acidentes vasculares cerebrais trombóticos e embólicos

O tratamento mais eficaz para os acidentes vasculares cerebrais isquémicos é um medicamento potente para dissolver os trombos, denominado activador do plasminogénio tecidular recombinante (rt-PA). O rt-PA pode restabelecer o fluxo sanguíneo e o fornecimento de oxigénio ao tecido cerebral afectado por um acidente vascular cerebral, melhorando o prognóstico do doente. No entanto, este medicamento deve ser administrado imediatamente, nas três horas que se seguem ao início das manifestações de acidente vascular cerebral. É por este motivo que é tão importante contactar o 112 (INEM) ao primeiro sinal do que pode ser um acidente vascular cerebral. No entanto, nem todos os doentes com AVC isquémico têm indicação para a utilização de rt-PA. Quando não é possível recorrer a este tratamento, é administrada aspirina.

No tratamento de um acidente vascular cerebral trombótico, os medicamentos para prevenir a formação de coágulos como a heparina são geralmente usados mais tardiamente. Estes medicamentos previnem o aumento de tamanho dos coágulos e evitam também a formação de novos trombos.

Depois do acidente vascular cerebral ter estabilizado, a aspirina ou outro medicamento antiagregante plaquetário são geralmente prescritos diariamente para diminuir a coagulação do sangue e assim prevenir outro acidente vascular cerebral.

No caso dos exames realizados demonstrarem um estreitamento grave de uma artéria importante para a irrigação cerebral, poderá ser necessário proceder a uma desobstrução através de uma intervenção cirúrgica (endarterectomia) ou de uma técnica endovascular (angioplastia e/ou colocação de stent).

Acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos

O rt-PA não é útil no tratamento dos acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos e está contra-indicado porque pode agravar a hemorragia.

Por vezes, poderá ser necessária a remoção do sangue da hemorragia através de uma intervenção cirúrgica para aliviar a pressão sobre o cérebro. Ocasionalmente, os exames revelam que a hemorragia foi causada por uma anomalia de um vaso sanguíneo, podendo requerer tratamento através de uma intervenção cirúrgica para evitar a ocorrência de outro acidente vascular cerebral.

Cuidados após o acidente vascular cerebral

Após um acidente vascular cerebral significativo de qualquer tipo, o doente é geralmente internado para observação de eventual agravamento das manifestações clínicas. Em casos graves, a respiração pode ser afectada e algumas pessoas podem necessitar de ser ligadas a um ventilador para as ajudar a respirar.

É essencial uma intervenção precoce por parte da equipa de reabilitação (fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala e reabilitação cognitiva) para ajudar o doente a lidar com a nova deficiência e a recuperar a força depois da lesão cerebral. Após a alta hospitalar é importante que o doente continue um plano de reabilitação de forma a maximizar a recuperação.

Após o AVC devem ser tomadas medidas para evitar a sua repetição, nomeadamente:

  • Dieta saudável, exercício regular e controlo do peso
  • Abstinência do tabaco
  • Limitar a ingestão de álcool
  • Medicação anti-hipertensora  (mesmo que não tenha a pressão arterial alta)
  • Medicação para diminuir o colesterol (mesmo que não tenho o colesterol aumentado)
  • Evitar os anticonceptivos orais e a terapêutica hormonal de substituição
  • No caso de AVC trombótico ou embólico, utilização de medicação que diminui a formação de trombos: antiagregantes plaquetares (por exemplo, aspirina ou clopidogrel) ou, nalguns casos, anticoagulantes (varfarina)

Quando contactar um médico

Em caso de manifestações clínicas de acidente vascular cerebral, deve telefonar imediatamente para o 112 para ser encaminhado para um serviço de urgência. Perante uma suspeita de AVC é prioritário que o doente chegue o mais rapidamente possível a um hospital que tenha todas as condições de diagnóstico e de tratamento desta patologia.

É importante que o doente seja avaliado mesmo que as manifestações durem apenas alguns minutos e, em seguida, desapareçam. Neste caso pode ter tido um acidente isquémico transitório (AIT), que constitui um sinal de alerta para um futuro acidente vascular cerebral. Uma em cada dez pessoas que sofrem um AIT tem um acidente vascular cerebral nos três meses seguintes.

Após um acidente isquémico transitório, o controlo dos factores de risco com medicação diminui o risco de um AVC subsequente. O tratamento inclui medicamentos para a pressão arterial elevada (hipertensão arterial), para diminuir o colesterol e um antiagregante plaquetário (frequentemente a aspirina).

Prognóstico

Se a irrigação sanguínea cerebral for restabelecida rapidamente e de forma completa, o doente pode recuperar com pouca ou nenhuma incapacidade. No caso de acidente vascular cerebral isquémico, o tratamento precoce com um medicamento que dissolve o coágulo, o rt-PA, pode reduzir significativamente a incapacidade.

Informação Adicional

Sociedade Portuguesa de Neurologia

http://www.spneurologia.org

Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral

http://www.spavc.org

Associação AVC

http://associacaoavc.pt

National Stroke Association

http://www.stroke.org

American Stroke Association

http://www.strokeassociation.org

National Institute of Neurological Disorders and Stroke

http://www.ninds.nih.gov

Alto Comissariado da Saúde

http://www.acs.min-saude.pt

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