Hepatite crónica

Fonte: 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Dr. Nuno Ferreira

Adaptação Científica:

Dra. Sara Belga

Validação Científica:

Prof.Rui Tato Matinho

O que é?

A hepatite é um termo médico que significa inflamação do fígado. Na hepatite crónica, a inflamação hepática (hepático é referente a fígado) dura há mais de seis meses. A hepatite crónica pode ser ligeira, causando poucas lesões no fígado, ou mais grave sendo responsável pela destruição de grande número de células hepáticas. Por vezes pode verificar-se evolução para cirrose e conduzir à insuficiência hepática.

Tecido hepático normal

O tecido hepatico normal é constituido por células hepáticas organizadas em unidades funcionais, que contêm vasos sanguíneos e se encontram rodeadas por tecido de suporte.

Os vírus das hepatites constituem a causa mais comum de hepatite crónica. Aqueles que podem causar hepatite crónica incluem:

  • Hepatite B e C: Estes vírus são responsáveis por dois terços dos casos de hepatite crónica. As pessoas infectadas com hepatite C apresentam um risco mais elevado de evoluirem para hepatite crónica (85% dos casos) em relação àquelas infectadas pelo vírus da hepatite B (menos de 5% quando a infecção é adquirida na idade adulta). Ambos os vírus começam geralmente por desencadear sintomas ligeiros. Ao longo do tempo, possivelmente ao fim de duas a três década ou mais, a infecção crónica pode conduzir a cirrose hepática. A cirrose constitui uma complicação grave que resulta da destruição progressiva das células hepáticas e à consequente formação de cicatrizes (fibrose). Alguns doentes com cirrose acaba por desenvolver, com o tempo, cancro do fígado (1 a 5% por ano).

Estádio de inflamação hepática

A hepatite crónica evolui por estádios, desde uma fase inicial, predominantemente inflamatória, até uma fase final em que quase todo o tecido hepático é substituido por tecido fibroso, cicatricial.

  • Hepatite D.A hepatite D infecta apenas doentes já infectados com o  vírus da hepatite B e, de um modo geral, resulta numa exacerbação aguda da hepatite.As três causas mais frequentes inflamação crónica não infecciosa são as seguintes:
    • Álcool. O álcool pode causar lesões inflamatórias persistentes que com o tempo podem evoluir para cirrose. Além disso, mesmo uma ingestão moderada de álcool pode agravar uma hepatite crónica de qualquer outra etiologia (especialmente a hepatite C), com um risco acrescido de evolução para cirrose hepática. O consumo não deve esceder 2 a 3 bebidas por dia no Homem e 1 a 2 na Mulher.
    • Esteato-hepatite não alcoólica. A esteato-hepatite não alcoólica é uma causa cada vez mais frequente de inflamação hepática persistente. A designação “esteato” significa gordura e a característica da esteato-hepatite não alcoólica é a presença de gordura no fígado e inflamação hepática persistente. A maior parte das pessoas não apresenta sintomas, sendo esta geralmente descoberta quando da realização de análises ao sangue de rotina, que revelam níveis de enzimas hepáticas acima dos valores normais (AST, ALT, GGT).
    • Hepatite autoimune. Nesta forma de hepatite crónica, o sistema imunitário destrói as células hepáticas do próprio organismo. Desconhece-se o que desencadeia a hepatite crónica autoimune. Se não for tratada, é progressiva e conduzir a cirrose hepática, podendo igualmente surgir associada a outras doenças autoimunes, tais como a síndrome de Sjögren e a anemia hemolítica autoimune. A hepatite autoimune é mais frequente nas mulheres jovens, mas pode afectar homens e mulheres de todas as idades.

    Alguns medicamentos podem conduzir a hepatite crónica. Estes medicamentos incluem:

    • Isoniazida, um medicamento para a tuberculose;
    • Metildopa, um medicamento para a hipertensão arterial
    • Fenitoína), um antibiótico para a epilepsia
    • Nitrofurantoína, um medicamento para as infecções urinárias.

    No entanto, a hepatite crónica causada por medicamentos é pouco frequente. As análises de sangue periódicas justificam-se quando os doentes são medicados com fármacos que se sabe poderem causar hepatite.

    Algumas doenças metabólicas hereditárias raras podem conduzir a hepatite crónica, incluindo:

    • A doença de Wilson, caracterizada pela acumulação de cobre no organismo;
    • A hemocromatose, em que a existência de depósitos excessivos de ferro em muitos órgãos pode conduzir a hepatite crónica e cirrose hepática;
    • A sarcoidose, doença inflamatória sistémica afectuando mais frequentemente os pulmões, que pode também lesar o fígado.

     

Manifestações clínicas

  • Numa fase inicial da doença, a hepatite crónica não causa sintomas. Os doentes com sintomas queixam-se mais frequentemente de fadiga que se agrava ao longo do dia e que pode mesmo ser incapacitante. Outros sintomas comuns incluem:
    • Desconforto ligeiro nos quadrantes superiores do abdómen;
    • Perda do apetite;
    • Artralgias (dores articulares).

    Se a hepatite crónica se tornar mais grave, se evoluir para cirrose, os doentes podem apresentar sintomas adicionais, incluindo:

    • Icterícia (coloração amarela da pele e dos olhos)
    • Distensão abdominal por acumulação de líquidos
    • Perda de peso, fraqueza muscular
    • Equimoses fáceis e hemorragias espontâneas
    • Confusão mental que pode progredir para o coma (chamada encefalopatia)

     

Diagnóstico

Uma vez que a hepatite crónica frequentemente não causa sintomas precoces, esta é frequentemente descoberta em análises de sangue de rotina. Se o médico suspeitar de hepatite crónica, pode examinar o doente para verificar se apresenta icterícia, dor à palpação do abdómen (especialmente no quadrante superior direito, onde o fígado se encontra localizado) e sinais de líquido no interior do abdómen (a chamada ascite) quando existe insuficiência hepática.

  • Podem ser realizadas análises ao sangue para avaliar:
    • As enzimas hepáticas, que são libertadas quando as células do fígado se encontram inflamadas ou lesadas (mais característica a ALT);
    • As enzimas das vias biliares (GGT);
    • Os níveis de bilirrubina, um pigmento produzido pela destruição dos glóbulos vermelhos e que é depois excretado pelo fígado ― níveis elevados de bilirrubina levam ao aparecimento de icterícia;
    • Os níveis de algumas proteínas, como a albumina e os factores da coagulação, para avaliar o funcionamento do fígado.

    Se estes exames revelarem sinais de inflamação ou de falência hepática, o doente deverá ser submetido a exames para determinar a causa da inflamação e/ou falência hepática. Os testes iniciais consistem na pesquisa das hepatites B e C bem como da presença de auto-anticorpos, presentes quando se trata de uma hepatite autoimune. O médico terá também de rever a medicação actual ou que tomou recentemente, para determinar se esta pode ser a causa da hepatite crónica. Se a causa continuar desconhecida, deverão ser pedidas análises de sangue adicionais para procurar identificar as causas menos comuns. Podem ainda ser realizadas uma ecografia ou uma tomografia computorizada para avaliar de forma mais precisa o fígado. Um fígado de pequenas dimensões com um contornos irregulares sugere cirrose hepática.Pode estar indicada a realização de uma biópsia hepática, na qual será removido um pequeno fragmento de tecido do fígado para ser examinado ao microscópio, Tal permite determinar a quantidade de fibrose (cicatrização) e a extensão e tipo da lesão hepática. Esta informação ajuda a determinar o melhor tratamento e a avaliar as probabilidades de se desenvolver cirrose e insuficiência hepática. A biópsia hepática pode ajudar igualmente a avaliar outras doenças, tais como uma lesão hepática alcoólica ou um fígado gordo.

    Um exame mais recente, semelhante a uma Ecografia abdominal chamado Elastografia Hepática Transitória, em muitos casos pode vir a substituir a biópsia hepática.

    História Natural

    Por definição, a hepatite crónica é uma inflamação persistente que se mantém para além de seis meses. Quando os sintomas são ligeiros ou inexistentes, o que acontece na grande maioria dos casos, o doente pode ter uma hepatite crónica durante algum tempo antes da doença vir a ser descoberta.

    O tratamento para alguns tipos de hepatite crónica viral pode eliminar a infecção activa e curar o doente de forma definitiva. Isto pode acontecer na hepatite C crónica.

    No entanto, o vírus pode permanecer quiescente nas células, pelo que a doença pode recorrer se se suspender a medicação. Isto acontece frequentemente na hepatite B crónica.

    Prevenção

    De um modo geral, a hepatite crónica é causada por uma infecção pelo vírus da hepatite B ou da hepatite C. Estes vírus são transmitidos de pessoa para pessoa através da via sexual ou do contacto com sangue ou outros fluidos orgânicos, oui quando são partilhadas agulhas ou nas transfusões de sangue (apenas as realizadas antes de 1992). Importa salientar que em Portugal, o risco de transmissão de hepatites virais através de transfusões de sangue, é actualmente muito baixo devido aos avanços dos testes de diagnóstico realizados nos dadores de sangue.

    No entanto, a razão para alguns casos de hepatite vírica evoluírem para hepatite crónica e outras não, continua por esclarecer.

Prevenção das Hepatites B e C

A hepatite B pode transmitir-se por via sexual, sanguínea ou vertical (de mãe para filho).

A hepatite C, apesar de poder ser transmitida por via sexual, é mais frequentemente transmitida por via sanguinea (geralmente através de troca de agulhas ou outro material usado no consumo de drogas).

As vacinas contra a hepatite B são recomendada principalmente para os profissionais de saúde, para as pessoas que viajam para determinados países (chamados de endémicos para a hepatite B), para consumidores de drogas, para quem mude frequentemente de parceiro sexual, familiares de infectados.

Os bebés que nascem em Portugal são todos vacinados por rotina contra a hepatite B.

Os métodos de barreira como os preservativos, devem ser sempre usados durante o contacto sexual para prevenir a infecção.

As agulhas ou outro material cortante ou perfurante nunca devem ser partilhadas.

Aquando da realização de uma tatuagem ou de um piercing, a pessoa deve certificar-se de que escolhe um estabelecimento onde todo o equipamento é adequadamente esterilizado.

A esteato-hepatite não alcoólica é mais frequentemente observada em pessoas com excesso de peso, especialmente se acumularem gordura excessiva ao nível da cintura. As mulheres com um perímetro da cintura igual ou superior a 89 cm e os homens com um perímetro da cintura igual ou superior a 102 cm apresentam um risco mais elevado de desenvolverem este tipo de hepatite crónica. A manutenção de um peso saudável e a prática regular de exercício físico proporcionam a melhor oportunidade para prevenir a esteato-hepatite não alcoólica.

Não existe forma de prevenir a hepatite crónica auto-imune, uma vez que a causa é desconhecida.

Se estiver a tomar um medicamento que possa afectar o fígado, certifique-se de que faz análises ao sangue regulares para evitar o desenvolvimento de toxicidade hepática ou mesmo de hepatite crónica.

Tratamento

Os objectivos do tratamento para a hepatite crónica consistem em prevenir o agravamento da doença e a progressão para cirrose e insuficiência hepática.

A hepatite viral é tratada actualmente com medicamentos anti-víricos, como o interferão-alfa e a ribavirina para a hepatite C e o tenofovir e o entecavir para a hepatite B. De momento, encontram-se em curso ensaios clínicos para determinar a melhor combinação de medicamentos, posologia e duração do tratamento de forma a melhorar a resposta e a reduzir a probabilidade da situação recidivar.

Os efeitos secundários comuns do interferão incluem:

  • Fadiga;
  • Dores musculares;
  • Dores de cabeça;
  • Náuseas e vómitos;
  • Febre;
  • Perda de peso;
  • Irritabilidade e depressão.

Se um doente tiver hepatite C, deve receber a vacina contra as hepatites A e B, a menos que as análises de sangue revelem que já se encontra imunizado contra estes vírus.

O tratamento da hepatite alcoólica consiste a abstinência total do álcool.

Os doentes com esteato-hepatite não alcoólica geralmente necessitam de perder peso em associação a actividade física regular. Além disso, muitas pessoas com esteato-hepatite não alcoólica apresentam níveis elevados de açúcar de sangue que, progridem frequentemente para uma diabetes tipo 2. Um controlo adequado do açúcar no sangue pode ajudar a diminuir a acumulação de gordura e a inflamação no fígado.

Se o doente já apresentar evidência de cirrose, deve fazer um exame denominado endoscopia para procurar identificar a presença de varizes esofágicas, isto é, veias dilatadas ao nível do esófago que podem causar uma hemorragia potencialmente fatal. Numa endoscopia, um tubo flexível com uma câmara é inserido através da boca até ao esófago e estômago.

O doente deve ainda efectuar um rastreio periódico do cancro do fígado (cujo risco se encontra aumentado nos doentes com cirrose) através de uma análise de sangue (doseamento da alfa-fetoproteína) e de uma ecografia ao fígado de 6 em 6 meses.

Os corticosteróides e outros medicamentos denominados de imunossupressores, de que é exemplo a azatioprina, constituem o tratamento principal da hepatite crónica auto-imune. Estes medicamentos geralmente diminuem os sintomas, reduzem a inflamação hepática e prolongam a sobrevivência.

A abordagem das formas menos comuns de hepatite crónica, consiste no tratamento da doença de base.

A hepatite crónica relacionada com medicamentos requer a interrupção e/ou substituição do medicamento.

Nos casos de cirrose associados a insuficiência hepática, pode mesmo ser necessário efectuar um transplante hepático.

Se a pessoa tiver uma hepatite crónica, deve evitar causar danos adicionais através do consumo de álcool ou medicamentos como o paracetamol (Ben-U-Ron®). O doente deve procurar discutir com o médico se pode tomar ou não este ou outros medicamentos (incluindo produtos de venda livre e medicamentos alternativos e de ervanária) e em que dose. É necessário ter em atenção que determinados medicamentos para as constipações e analgésicos contêm igualmente paracetamol.

Os cuidados de suporte são essenciais para lidar com uma hepatite crónica. Uma dieta equilibrada e uma boa forma física podem ajudar o doente a combater a fadiga e a melhorar o estado de saúde em geral. O doente pode necessitar de limitar a ingestão de sal se tender a acumular líquidos em consequência da cirrose.

Quando contactar um médico

Se sentir fadiga persistente, o sintoma mais comum de uma hepatite crónica, deve consultar o seu médico. Se estiverem presentes sinais sugestivos e uma hepatite crónica ou de uma insuficiência hepática, tais como icterícia, aumento de volume abdominal ou perda de peso, deve igualmente ser sujeito a avaliação médica.

Prognóstico

Nos seus estádios graves, a cirrose pode conduzir a uma insuficiência hepática e consequentemente levar à morte, a menos que seja realizado um transplante hepático.

A probabilidade de desenvolvimento de uma cirrose depende da gravidade da doença e da resposta ao tratamento. Quando uma biópsia revela uma lesão grave, o tratamento pode ser importante para ajudar a diminuir o risco de desenvolvimento de uma cirrose, mesmo que o doente esteja assintomático. Outros factores que afectam o prognóstico incluem a idade, outras doenças médicas, o subtipo do vírus e o consumo de álcool.

Qualquer pessoa com cirrose apresenta igualmente um risco acrescido de desenvolver um cancro do fígado e deve ser rastreada regularmente através de análises de sangue e de uma ecografia hepática.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

http://www.spg.pt/

Direcção Geral de Saúde

http://www.dgs.pt/

Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado

www.apef.com.pt

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: