Doença bipolar

Fonte:

 

Tradão e Edição de Imagem Científica:

 

Adaptação Científica:

Drª.Carolina Vaz Macedo

Validação Científica:

Prof. João Relvas

O que é?

A perturbação ou doença bipolar, a que se costumava chamar doença maníaco-depressiva, é uma perturbação mental caracterizada por amplas alterações de humor que variam de altas (maníacas) a baixas (deprimidas).

Os períodos de estado de humor alto ou irritável denominam-se episódios maníacos. A pessoa torna-se muito activa, mas de uma forma desconcentrada e não produtiva, algumas vezes com consequências dolorosas ou embaraçosas. Os exemplos incluem gastar mais dinheiro do que é razoável ou envolver-se em aventuras sexuais de que mais tarde se vem a arrepender. Uma pessoa num estado maníaco está repleta de energia ou encontra-se mesmo irritável, pode dormir menos do que o normal e pode engendrar grandes planos que nunca poderiam realisticamente concretizar-se. A pessoa pode desenvolver pensamentos que não se coadunam com a realidade – sintomas psicóticos – tais como falsas crenças (delírios) ou falsas percepções (alucinações). Durante os episódios maníacos, a pessoa pode ter problemas com as autoridades. Se a pessoa apresentar sintomas mais ligeiros de mania e não apresentar sintomas psicóticos, a situação denomina-se “hipomania” ou episódio hipomaníaco.

Actualmente, divide-se a perturbação bipolar em dois subtipos: bipolar tipo I e bipolar tipo II.

  • Perturbação bipolar tipo I: forma clássica em que a pessoa apresenta pelo menos um episódio maníaco.
  • Perturbação bipolar tipo II: a pessoa nunca teve um episódio maníaco, mas apresentou pelo menos um episódio hipomaníaco e pelo menos um período de depressão grave. A perturbação bipolar II pode ser mais comum do que a bipolar I.

Existe ainda uma outra perturbação, que se classifica separadamente mas que está intimamente relacionada com perturbação bipolar, a que se chama ciclotimia. As pessoas com esta perturbação flutuam entre hipomania e depressão ligeira ou moderada sem nunca desenvolverem verdadeiros episódios maníacos ou depressivos major.

Algumas pessoas com perturbação bipolar alternam de forma rápida ou frequente entre sintomas maníacos e depressivos, um padrão que se denomina de “ciclos rápidos”.

A maioria das pessoas que apresenta episódios maníacos também passa por períodos de depressão. Se os sintomas maníacos e depressivos se sobrepõem durante um determinado período, o episódio denomina-se “misto”. Em algumas pessoas, pode haver dificuldades em afirmar que tipo de humor – depressão ou mania – é proeminente.

As pessoas que tiveram um episódio maníaco têm grandes probabilidades de vir a apresentar novos episódios se não forem tratadas. A doença tem tendência a seguir um padrão familiar. Ao contrário da depressão, na qual se verifica uma predominância do diagnóstico nas mulheres, a perturbação bipolar acontece quase de igual modo nos homens e nas mulheres. As perturbações bipolar I e II ocorrem em até cerca de 4% da população.

A biologia da perturbação bipolar está a começar a ser melhor compreendida, embora ainda haja muito a aprender. Por exemplo, as pessoas com perturbação bipolar podem ter problemas com o seu relógio biológico (ou ritmo circadiano). Esta descoberta enquadra-se no nosso conhecimento do efeito da perturbação bipolar no sono – menos sono durante episódios maníacos e dormir mais do que o normal durante episódios depressivos.

Pelo uso de técnicas de imagem cerebral avançadas, os cientistas verificaram também que as pessoas com perturbação bipolar apresentam um padrão distinto de activação em várias regiões cerebrais (em comparação com as pessoas sem a perturbação). Estão a ser procurados quais os genes que colocam as pessoas em risco acrescido de desenvolver perturbação bipolar. As descobertas nesta área poderão ajudar a fazer a distinção entre os diferentes subtipos da perturbação.

O risco mais importante desta doença é o risco de suicídio. As pessoas que têm perturbação bipolar têm também maiores probabilidades de ingerir álcool em excesso ou de abusar de outras substâncias.

Manifestações clínicas

Durante uma fase maníaca, as manifestações podem incluir:

  • Elevado nível de energia e de actividade
  • Humor irritável
  • Diminuição da necessidade de dormir
  • Auto-estima “inchada”, exagerada (“sensação de grandiosidade”)
  • Discurso rápido
  • Pensamentos rápidos
  • Tendência para ser facilmente distraído
  • Imprudência
  • Falsas crenças (delírios) ou falsas percepções (alucinações)

Durante estados de humor exaltado a pessoa pode ter delírios de grandeza. Já os estados de humor irritáveis são muitas vezes acompanhados de sentimentos paranóides ou de desconfiança.

Durante um período depressivo, as manifestações podem incluir:

  • Humor distintamente baixo ou irritável
  • Perda de interesse ou prazer
  • Comer mais ou menos do que o normal
  • Ganhar ou perder peso
  • Dormir mais ou menos do que o normal
  • Parecer lento ou agitado
  • Fadiga e perda de energia
  • Sentimento de falta de valor ou de culpa
  • Falta de concentração
  • Indecisão
  • Pensamentos de morte, tentativas ou planos de suicídio

Diagnóstico

Um profissional de saúde mental diagnostica a perturbação bipolar com base na história e sintomas da pessoa. O diagnóstico não se baseia apenas nos sintomas actuais, mas também na compreensão dos problemas e sintomas que ocorreram ao longo da vida.

As pessoas com perturbação bipolar têm mais probabilidades de procurar ajuda quando estão deprimidas do que quando se encontram maníacas ou hipomaníacas. É importante contar ao prestador de cuidados de saúde qualquer história de sintomas maníacos (como os atrás descritos). A toma de medicamentos anti-depressivos por pessoas com uma história deste tipo pode desencadear episódios maníacos (“viragem maníaca”).

Tendo em conta que as medicações e outras doenças podem provocar sintomas de mania e de depressão, por vezes o psiquiatra e o médico de família têm de trabalhar em conjunto na avaliação do problema. Por exemplo, a evolução da doença pode ser afectada pelo tratamento com corticosteróides ou por um problema da tiróide.

Evolução Clínica

Se não for tratado, um primeiro episódio de mania dura, em média, dois a quatro meses. Um episódio depressivo pode durar cerca de oito meses ou mais, mas pode haver muitas variações. Se a pessoa não receber tratamento, com o passar do tempo os episódios têm tendência para se tornarem mais frequentes e mais prolongados.

Prevenção

Não há forma de prevenir a perturbação bipolar, mas com o tratamento pode evitar-se o surgimento de episódios maníacos e depressivos ou, pelo menos, reduzir a sua intensidade ou frequência. Através da procura de ajuda médica nas formas mais ligeiras da perturbação pode conseguir-se impedir o aparecimento das formas mais graves. Infelizmente, o receio da estigmatização leva muitas vezes a que as pessoas não mencionem as suas preocupações ao seu médico de família ou a outro prestador de cuidados de saúde.

Tratamento

É muito útil recorrer a uma combinação de medicação e psicoterapia. Muitas vezes há necessidade de mais do que uma medicação para manter os sintomas controlados.

Estabilizadores de humor

O estabilizador de humor mais conhecido e mais antigo é o carbonato de lítio, que pode aliviar os episódios maníacos e evitar que voltem a aparecer. O lítio pode reduzir o risco de suicídio.

As pessoas sob terapêutica com lítio têm de efectuar análises periódicas ao sangue para se garantir que a dose que estão a tomar é a adequada (e não excessiva ou insuficiente). Os efeitos colaterais incluem náuseas, diarreia, micção frequente (urinar muitas vezes), tremores e diminuição da acuidade mental. O lítio pode provocar pequenas alterações em análises que avaliam o funcionamento da tiróide, dos rins e do coração. Habitualmente estas alterações não são graves, mas é importante fazer alguns exames antes de começar a tomar lítio, incluindo um electrocardiograma (ECG) e análises ao sangue para avaliar a função da tiróide, dos rins e para contar os leucócitos (glóbulos brancos).

Desde há muitos anos que também se tem recorrido a medicações anti-convulsivantes, que são primariamente usadas para tratar as convulsões, com a finalidade de tratar a perturbação bipolar. As que são mais usadas incluem o ácido valpróico, a lamotrigina e a carbamazepina.

Algumas pessoas toleram melhor o ácido valpróico do que o lítio. Quando se inicia a toma de ácido valpróico é frequente o surgimento de náuseas, perda de apetite, diarreia, sedação e tremores, mas estes efeitos colaterais tendem a desaparecer com o tempo. A medicação também pode provocar aumento de peso. A lesão hepática e os problemas com as plaquetas sanguíneas, que ajudam a coagular o sangue, constituem efeitos colaterais raros, mas graves.

Nos últimos anos tem-se usado a lamotrigina com maior frequência porque alguns estudos mostram que é mais eficaz do que o lítio para a prevenção de episódios depressivos de perturbação bipolar (muito embora o lítio seja mais eficaz na prevenção de mania). O efeito colateral mais problemático da lamotrigina é uma erupção cutânea intensa – em casos raros, esta erupção pode tornar-se perigosa. Para minimizar o risco, é provável que o médico opte por começar com uma dose baixa e a vá aumentando muito lentamente. Outros efeitos colaterais comuns incluem náuseas e cefaleias (dores de cabeça).

A carbamazepina é outro anti-convulsivante usado para tratar perturbação bipolar. Os seus efeitos colaterais mais frequentes são sonolência, tonturas, visão enevoada, náuseas e vómitos. Estes efeitos colaterais podem muitas vezes ser evitados com um aumento gradual da dose. Há alguns efeitos colaterais graves, mas raros, que incluem inflamação hepática, diminuição da contagem de eritrócitos (glóbulos vermelhos) e leucócitos (glóbulos brancos) e erupções cutâneas intensas.

Deve evitar-se tomar lítio, ácido valpróico e carbamazepina durante os primeiros três meses de gravidez, pois a toma destes medicamentos está comprovadamente associada a um maior risco de desenvolvimento de malformações congénitas. No entanto, em certos casos o regresso de sintomas maníacos ou depressivos pode constituir um risco mais significativo para o feto do que a toma dos medicamentos. Deste modo, é importante discutir com o médico as várias opções de tratamento e riscos associados.

 

Medicações Antipsicóticas

Nos últimos anos, os estudos mostraram que algumas das novas medicações antipsicóticas podem ser eficazes no controlo de manifestações de perturbação bipolar. Muitas vezes há que ponderar os efeitos colaterais face aos benefícios destes fármacos:

  • Olanzapina: sonolência, secura da boca, tonturas e aumento de peso.
  • Risperidona: sonolência, inquietação e náuseas.
  • Quetiapina: secura da boca, sonolência, aumento de peso e tonturas.
  • Ziprasidona: sonolência, tonturas, inquietação, náuseas e tremores.
  • Aripiprazole: náuseas, dores de estômago, sonolência (ou falta de sono) ou inquietação.

Alguns destes novos anti-psicóticos, em particular a olanzapina, podem aumentar o risco de diabetes e alterar os valores dos lípidos no sangue. Com a risperidona e a quetiapina o risco é moderado. A ziprasidona e o aripiprazole provocam uma alteração mínima no peso e menor risco de diabetes.

Ansiolíticos

Algumas vezes, usam-se medicações anti-ansiedade (ansiolíticos), tais como o lorazepam e o clonazepam para diminuir a ansiedade e a agitação associadas a um episódio maníaco.

Anti-depressivos

O uso de anti-depressivos na perturbação bipolar é controverso. Actualmente, muitos psiquiatras evitam prescrever anti-depressivos devido à evidência de que podem desencadear um episódio maníaco ou induzir um padrão de ciclos rápidos. Deste modo, a partir do momento em que se realiza um diagnóstico de perturbação bipolar, muitos psiquiatras tentam tratar a doença usando estabilizadores de humor. No entanto, alguns estudos continuam a mostrar o valor do tratamento anti-depressivo, em regra quando também se está a prescrever um estabilizador de humor ou medicação anti-psicótica.

Há tantas formas diferentes de perturbação bipolar que é impossível estabelecer uma regra geral. Em alguns casos pode justificar-se o uso isolado de um anti-depressivo. Esta é outra área em que os prós e contras do tratamento devem ser vistos cuidadosamente com o médico.

 

Psicoterapia

A psicoterapia é importante, dado que fornece educação e apoio e ajuda a pessoa a aceitar a doença. A investigação recente mostrou que, nos episódios de mania, a psicoterapia ajuda as pessoas a reconhecerem os sintomas de alteração de humor numa fase inicial e ajuda-as a seguir um esquema de tratamento de forma mais rígida. Para a depressão, a psicoterapia pode ajudar as pessoas a desenvolverem estratégias de coping (aprender a lidar com a situação). A educação familiar ajuda os membros da família a comunicar e a resolver os problemas. Quando as famílias se mantêm envolvidas, os doentes ajustam-se mais facilmente e têm mais probabilidades de tomar decisões acertadas sobre o tratamento e de ter uma melhor qualidade de vida; têm menos episódios de doença, menos dias com sintomas e menos idas ao hospital.

A psicoterapia ajuda a pessoa a lidar com as consequências dolorosas, dificuldades práticas ou vergonha associadas a um comportamento maníaco. A pessoa pode ter sofrido algumas perdas quer em relações pessoais quer profissionais. Vários tipos de técnicas de psicoterapia podem ser úteis dependendo das origens dos problemas. A terapia cognitivo-comportamental ajuda a reconhecer os padrões de pensamento que podem impedir a pessoa de tratar bem a doença. A psicoterapia psicodinâmica, orientada para o insight (discernimento) ou interpessoal pode ajudar a resolver conflitos em relações importantes ou explorar a história por detrás dos sintomas.

Quando Contactar um Médico

Um episódio maníaco é um problema grave que requer tratamento imediato. No entanto, a pessoa pode não ter consciência de que está doente. Algumas pessoas com esta doença podem ter de ser levadas ao hospital contra a sua vontade. Muitos doentes vêm mais tarde a sentir-se gratos ao aperceberem-se de que se evitou uma perda ou uma situação embaraçosa e que foram levados a receber o tratamento de que precisavam.

Se observar manifestações maníacas numa pessoa que não tem consciência da sua situação, marque uma consulta com um médico. O tratamento pode evitar que os sintomas acelerem e pode melhorar o comportamento com o passar do tempo.

Tendo em conta o elevado risco de suicídio na perturbação bipolar, qualquer pessoa com perturbação bipolar conhecida que exiba manifestações de agravamento da depressão deve contactar, de imediato, o seu psiquiatra.

Prognóstico

A evolução natural da perturbação bipolar é variável, mas sem tratamento os episódios maníacos e depressivos têm tendência a ocorrer com mais frequência à medida que a pessoa envelhece, provocando um aumento dos problemas nas relações pessoais ou no trabalho. É muitas vezes necessária persistência para encontrar a combinação terapêutica adequada e com um mínimo de efeitos colaterais. Mas o tratamento está a tornar-se cada vez mais eficaz: conseguem diminuir-se muitos dos sintomas e, em alguns casos, até mesmo eliminá-los. Como resultado, muitas pessoas com perturbação bipolar conseguem agir de uma forma completamente normal e ter vidas bastante bem-sucedidas.

Informação Adicional

Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares

http://www.adeb.pt/

 Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

http://sppsm.org

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2 Respostas to “Doença bipolar”

  1. Doença Bipolar « Programa Harvard Medical School – Portugal Says:

    […] o artigo aqui: Doença bipolar Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like this artigo. Na categoria […]

  2. jorge manuel bastos das neves Says:

    Excelente revisão acerca da doença bipolar.
    Parabéns aos autores e ao Programa Harvard Medical School Portugal.


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