Toxoplasmose

Fonte:

Tradão e Edição de Imagem Científica:

Adaptação Científica:

Dr. Hugo Dias

Validação Científica:

Prof.Saraiva da Cunha

O que é?

A toxoplasmose é uma infecção parasitária que afecta uma grande proporção da população mundial mas raramente causa doença. No entanto, certas pessoas apresentam um risco elevado de desenvolverem uma doença grave e potencialmente fatal na sequência da infecção por este parasita. É o caso dos lactentes que são infectados quando do nascimento, dos doentes com SIDA, das pessoas com cancro e das pessoas que foram submetidas a um transplante de medula óssea ou de um órgão.

A toxoplasmose é uma infecção causada pelo Toxoplasma gondii, um parasita unicelular que passa a maior parte do seu ciclo de vida nos gatos. Uma vez que um gato infectado pode eliminar milhões destes parasitas diariamente pelas fezes, a toxoplasmose pode transmitir-se facilmente a quase todos os outros animais que partilham o meio ambiente com os gatos. Nos seres humanos, o contágio com o Toxoplasma ocorre geralmente por via oral. Isto pode acontecer quando as pessoas tocam na boca com as mãos sujas, especialmente depois de mudarem a cama dos gatos ou se comerem carne de vaca, porco, borrego ou veado que não tenha sido cuidadosamente cozinhada.

O Toxoplasma multiplica-se no interior das células que revestem o aparelho digestivo humano e pode disseminar-se para quase todos os órgãos do corpo, incluindo o cérebro, músculos, coração, olhos, pulmões e gânglios linfáticos. Nas pessoas saudáveis, o sistema imunitário acaba por conter a disseminação do Toxoplasma, embora possam permanecer indefinidamente alguns parasitas quiescentes no cérebro ou na retina.

Nas pessoas cujas defesas imunitárias estão enfraquecidas devido à SIDA, a um cancro ou a medicamentos imunossupressores, uma toxoplasmose adquirida recentemente pode disseminar-se de forma descontrolada e tornar-se mortal; do mesmo modo, os Toxoplasma quiescentes de uma toxoplasmose antiga podem tornar-se subitamente activos e causar uma doença grave. Esta situação é particularmente perigosa nas pessoas com SIDA. Nestes doentes, uma toxoplasmose quiescente pode reactivar-se e causar uma infecção cerebral grave (encefalite) que pode provocar convulsões e outros problemas neurológicos. Se não for tratada, a taxa de mortalidade da encefalite é muito elevada.

Para além de ser transmitido por via oral, o Toxoplasma pode ser introduzido no corpo humano através de transfusões de sangue contaminado ou de transplantes de órgão colhidos de dadores infectados. Além disso, se uma toxoplasmose se desenvolver numa grávida, existe uma probabilidade de 50% de que o parasita atravesse a placenta e cause toxoplasmose no lactente. A esta infecção chama-se toxoplasmose congénita e estes recém-nascidos apresentam um risco elevado de apresentarem problemas oculares relacionados com a toxoplasmose, bem como distúrbios do desenvolvimento.

Manifestações clínicas

Nas pessoas com defesas imunitárias normais, até 90% dos casos de toxoplasmose não causam sintomas, pelo que a infecção passa frequentemente despercebida. Nos relativamente poucos casos em que se desenvolvem sintomas, os mais comuns são:

  • Aumento de volume dos gânglios linfáticos
  • Dores de cabeça
  • Mal-estar (uma sensação generalizada de doença)
  • Fadiga
  • Febre baixa.

Em casos raros, os doentes também sentem dores musculares, dores de garganta, dores abdominais, erupção cutânea e sintomas neurológicos.

Nas pessoas com um sistema imunitário enfraquecido, especialmente nas que têm SIDA, os sintomas de toxoplasmose estão frequentemente relacionados com o cérebro e são graves. Estes sintomas podem incluir:

  • Perturbações da função intelectual, especialmente desorientação, dificuldade de concentração ou alterações do comportamento
  • Febre
  • Dores de cabeça
  • Convulsões
  • Perturbações da função neurológica, especialmente movimentos anormais, dificuldades na marcha, dificuldades na fala e perda parcial da visão.

Além disso, se a toxoplasmose afectar os olhos de um doente com um sistema imunitário enfraquecido, pode ocorrer visão enevoada, “manchas” nos campos visuais, dor ocular e uma sensibilidade extrema à luz. Se a toxoplasmose afectar os pulmões, pode ocorrer falta de ar, febre, tosse seca, expectoração com sangue e, por fim, insuficiência respiratória.

Se uma mulher desenvolver toxoplasmose durante a gravidez ou nas seis semanas anteriores a engravidar, a criança pode nascer com uma toxoplasmose congénita. Geralmente, as crianças não apresentam sintomas à nascença. No entanto, um exame cuidadoso revela, geralmente, sinais de infecção nos olhos do recém-nascido. Outros sintomas que podem surgir nos recém-nascidos podem incluir:

  • Tamanho corporal anormalmente pequeno (baixo peso à nascença)
  • Estrabismo, um olhos que vagueia ou desalinhado, ou outros problemas oculares
  • Um tamanho da cabeça que é anormalmente grande ou anormalmente pequena
  • Convulsões
  • Icterícia (uma coloração amarelada da pele e das mucosas)
  • Gânglios linfáticos aumentados
  • Equimoses
  • Erupção cutânea
  • Atraso do desenvolvimento e, por vezes, atraso mental.

Além disso, a toxoplasmose congénita aumenta o risco de morte fetal ou de parto prematuro.

Diagnóstico

O médico irá fazer perguntas sobre a história clínica do doente para verificar se existe algum problema médico que diminua as suas defesas imunológicas contra a toxoplasmose, incluindo uma infecção pelo VIH, um cancro, uma deficiência imunitária hereditária ou um transplante de órgão. Além disso, o médico vai rever a medicação actual do doente para verificar se existe algum fármaco que possa suprimir as defesas imunológicas, permitindo que um Toxoplasma quiescente se torne activo. O médico irá igualmente inquirir o doente sobre a exposição a gatos, especialmente gatos vadios que matam e comem pequenas presas. Para avaliar o risco de toxoplasmose relacionada com os alimentos, o médico irá perguntar ao doente se come carne crua ou muito mal cozinhada.

Se um doente apresentar sintomas de toxoplasmose, o médico irá efectuar um exame clínico para verificar se existem gânglios linfáticos aumentados de volume (adenomegálias) e sinais de envolvimento cerebral ou de lesão ocular. Para confirmar o diagnóstico, o médico irá pedir análises de sangue para pesquisar anticorpos (proteínas que participam nas defesas do organismo e que são produzidas pelo sistema imunitário) contra o Toxoplasma. Dependendo dos níveis sanguíneos de determinados anticorpos, o médico pode ser capaz de dizer se um doente tem uma toxoplasmose activa ou se teve um episódio passado de toxoplasmose. A maioria das pessoas saudáveis não se recorda de um episódio passado, uma vez que 90% delas nunca tiveram sintomas. Se um doente tiver uma toxoplasmose aguda, o diagnóstico pode ser confirmado pela identificação do Toxoplasma em amostras de sangue, líquidos corporais ou tecidos infectados.

Se o médico suspeitar que a toxoplasmose envolveu o cérebro, ele irá requisitar uma tomografia computorizada (TC) ou uma ressonância magnética nuclear (RMN) crânio-encefálica para pesquisar evidência de encefalite.

A toxoplasmose congénita pode ser diagnosticada antes do nascimento usando a ecografia ou um procedimento denominado amniocentese. Depois do nascimento, o lactente pode efectuar os seguintes exames: um exame ocular, um exame neurológico, uma tomografia computorizada crânio-encefálica e uma análise laboratorial do líquido céfalo-raquidiano colhido durante uma punção lombar.

Evolução clínica

Se uma pessoa tiver um sistema imunitário saudável, os sintomas ligeiros de toxoplasmose irão, provavelmente, regredir ao fim de algumas semanas, mesmo sem tratamento médico. Raramente, o aumento de volume dos gânglios linfáticos desaparece mais lentamente, por vezes ao longo de meses. Depois dos sintomas agudos terem regredido, alguns Toxoplasma quiescentes podem persistir no corpo durante décadas, mas geralmente não provocam sintomas, a menos que o sistema imunitário esteja comprometido.

No entanto, se o sistema imunitário do doente estiver enfraquecido devido a uma doença como a SIDA, será então necessária terapêutica para a toxoplasmose durante todo o tempo em que o sistema imunitário se encontrar comprometido, uma vez que a doença irá recidivar quando o tratamento for suspenso. Se o sistema imunitário for fortalecido com a utilização de uma terapêutica anti-retroviral altamente activa, pode ser possível suspender a terapêutica para a toxoplasmose.

Prevenção

Uma pessoa pode ajudar a prevenir uma toxoplasmose tomando as seguintes precauções:

  • Não ingerir carne crua ou mal cozinhada. Cozinhe-a a uma temperatura interna de, pelo menos, 60ºC.
  • Lavar as mãos cuidadosamente depois de manipular carne crua, depois de fazer jardinagem e depois de mudar a cama do gato.
  • Se estiver grávida ou se tiver um sistema imunitário enfraquecido, não deve manipular carne crua ou mudar a cama de um gato. Se não for possível evitar estas actividades, devem ser usadas luvas.
  • Se tiver um gato, deve mantê-lo dentro de casa e alimentá-lo com alimentos enlatados ou comida liofilizada para gatos.
  • Se tiver uma infecção pelo VIH, efectuará análises para verificar se dispõe de anticorpos no sangue contra a toxoplasmose, o que pode indicar que esteve infectada no passado. Se a pesquisa de anticorpos for positiva e o sistema imunitário estiver gravemente comprometido, irá ser necessário instituir um tratamento com medicamentos, como o antibiótico trimetoprim/sulfametoxazol para prevenir a reactivação da doença. Se a pesquisa de anticorpos for negativa, a pessoa deverá ser aconselhada a evitar a infecção usando as técnicas acima descritas.

Tratamento

Na maioria dos casos, se uma pessoa apresentar, de um modo geral, uma boa saúde, não é necessário tratamento, a menos que os sintomas sejam graves ou anormalmente persistentes.

Se um doente apresentar um sistema imunitário enfraquecido, o médico pode tratá-lo com uma combinação de medicamentos para eliminar o Toxoplasma. Alguns dos fármacos que estão actualmente a ser utilizados são a sulfadiazina e a pirimetamina ou, em alternativa, o  trimetoprim/sulfametoxazol e a clindamicina.

Os recém-nascidos com toxoplasmose congénita são tratados durante, pelo menos, um ano com uma terapêutica combinada. Se uma mulher desenvolver uma toxoplasmose durante a gravidez, o médico pode prescrever medicamentos como a espiramicina, que podem reduzir o risco da criança contrair uma toxoplasmose congénita. Para reduzir a possibilidade de malformações congénitas relacionadas com os medicamentos, o tipo e a calendarização da medicação depende do trimestre da gravidez em que a mulher está.

Quando contactar um médico

Consulte o seu médico se desenvolver sintomas de toxoplasmose, especialmente se estiver grávida ou se apresentar qualquer doença médica que enfraqueça o sistema imunitário. Se planeia engravidar, pergunte ao seu médico se necessita de realizar uma análise de sangue para a toxoplasmose antes da gravidez.

Prognóstico

As pessoas com SIDA que recuperaram de uma toxoplasmose aguda apresentam um risco elevado de terem episódios futuros, uma vez que os parasitas quiescentes podem reactivar-se. Para prevenir esta situação, um doente com SIDA deve iniciar um regime com medicamentos preventivos e continuar a tomar a medicação enquanto o sistema imunitário continuar enfraquecido. Uma combinação farmacológica profilática popular ― trimetoprim/sulfametoxazol ― também ajuda a prevenir a pneumonia por Pneumocystis jiroveci (antigamente designado por Pneumocystis carinii), uma infecção que atinge os doentes com SIDA com um sistema imunitário enfraquecido. Esta combinação farmacológica pode ser responsável pela diminuição da toxoplasmose cerebral observada nos doentes com SIDA. Muitos casos de toxoplasmose congénita podem ser curados com medicamentos. Mesmo as crianças com infecções graves quando do nascimento podem nunca apresentar sinais de lesão grave a longo prazo se tiverem um diagnóstico e um tratamento precoces.

Se uma grávida desenvolver toxoplasmose, o risco do seu filho ter uma toxoplasmose congénita reduz-se em 60% se ela for tratada adequadamente com medicamentos.

Informação adicional

Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica

http://spdimc.org

Centro de Prevenção e Controlo de Doenças – CDC (Estados Unidos da América)

http://www.cdc.gov/

Sociedade Portuguesa de Ginecologia

http://www.spginecologia.pt/

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Uma resposta to “Toxoplasmose”

  1. jorge manuel bastos das neves Says:

    Excelente revisão, muito esclarecedora e bem elaborada.
    Bom trabalho, obrigado pelo vosso esforço e empenho profissional.


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