Como se decide a comparticipação de um medicamento?

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Como se decide a comparticipação de um medicamento?” com o Prof. António Vaz Carneiro: Como se decide a comparticipação de um medicamento?

A comparticipação de medicamentos é um co-pagamento que o Estado faz, de maneira a que o preço que os doentes têm de pagar seja menor.

Para que um medicamento seja comparticipado, deverá ter estudos em que é comparado com um outro medicamento que esteja já a ser utilizado para tratamento da doença específica para que ele foi desenvolvido.

Este é um processo complexo, feito de dois passos:

  1. uma análise de benefício-risco, em que se estuda o impacto clínico do medicamento na doença específica, assim como o seu perfil de segurança (habitualmente através de ensaios clínicos)
  2. uma análise farmacoeconómica, que tem dois objectivos principais:
    1. definir o custo adicional do novo tratamento, comparado com as alternativas existentes, e
    2. calcular os benefícios clínicos adicionais, isto é, o que o medicamento traz de novo como vantagem terapêutica em relação aos outros que já existem.

Uma vez aprovado nestes passos, o medicamento é comparticipado e colocado à disposição dos doentes.

E como se calcula o preço? Ao contrário do que muita gente possa pensar, o preço não se baseia no que o medicamento custa a fabricar, mas sim no investimento global que foi necessário para o disponibilizar no mercado.

Como se introduz um medicamento no mercado?

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Como se introduz um medicamento no mercado?” com o Prof. António Vaz Carneiro: Como se introduz um medicamento no mercado?

Nesta 3ª parte das intervenções sobre o desenvolvimento de medicamentos, vamos hoje falar da Autorização de Introdução no Mercado.

Depois de estudado e desenvolvido em estudos pré-clínicos e clínicos (estes últimos chamados ensaios clínicos), o medicamento está pronto para ser disponibilizado aos doentes que dele necessitem.

O processo de introdução no mercado é hoje em dia feito centralmente, em Bruxelas, e baseia-se precisamente nos ensaios clínicos já mencionados, em que a nova molécula só tem de demonstrar benefício superior ao placebo (a substância inerte com a qual se compara).

Para além disso, tem ainda de demonstrar um perfil de segurança aceitável, isto é, não deve ter uma taxa elevada de efeitos adversos (por exemplo erupções de pele, dores de estômago, diarreias, etc.).

Uma vez o medicamento tendo provado ser benéfico e seguro, pode então ser introduzido em todos os países.

Mas falta ainda um último passo muito importante: o da comparticipação pelo Estado, isto é, o co-pagamento que o Estado assegura ao cidadão que necessita de adquirir o medicamento.

Este é o tema que iremos discutir amanhã.

O que é um ensaio clínico?

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “O que é um ensaio clínico?” com o Prof. António Vaz Carneiro: O que é um ensaio clínico?

A fase final do processo de desenvolvimento de um medicamento implica a realização de um estudo com essa substância num determinado número de doentes com a doença que se quer tratar.

É o chamado ensaio clínico.

O que fazemos é – classicamente – dividir os doentes em dois grupos, administrando a substância activa a um deles, e uma substância não-activa (a que chamamos placebo) ao outro.

O 1º grupo (a que foi administrada a substância activa) chama-se experimental, o 2º chama-se grupo de controlo.

E porquê de controlo?

Porque deste modo detectamos com mais rigor o eventual benefício da medicação.

Um exemplo: uma grande parte dos doentes com bronquite aguda acaba por se curar sozinhos, isto é, sem tratamento específico. Se estivermos a testar um novo antibiótico para o tratamento da bronquite, então é fundamental perceber se com a administração daquele a cura se dá por exemplo num período de tempo mais curto, ou o se doente recupera mais depressa. Para isso é que é necessário o tal grupo de controlo, para podermos comparar a evolução da doença entre os dois e o efeito da intervenção.

No final de um ensaio clínico – se tudo correu bem – teremos então os resultados do benefício do medicamento e este fica pronto para ser comercializado e chegar ao público.

Como se inventa e comercializa um medicamento?

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Como se inventa e comercializa um medicamento?” com o Prof. António Vaz Carneiro: Como se inventa e comercializa um medicamento?

Já alguma vez se perguntou como é que os medicamentos que se encontram disponíveis no mercado foram inventados?

Se calhar ficará surpreendido em saber que é um processo que demora entre 10-15 anos e que é muito dispendioso.

Primeiro selecionam-se, dentre milhares, as moléculas mais promissoras.

De seguida, e durante o período chamado pré-clínico (que dura em média 6 anos), são testados em animais cerca de 250 moléculas.

Apenas cerca de 5 passam esta barreira e entram no chamado período clínico, que por sua vez tem 3 fases e que dura em média 6-7 anos. Durante este período a molécula vai ser administrada primeiro, num nº restrito de voluntários saudáveis e, de seguida, num nº restrito de doentes com a doença que se quer tratar.

Estas fases servem para se estudar as propriedades do medicamento, especialmente em termos da sua toxicidade e segurança.

Durante a terceira e última parte do período clínico estuda-se então um grande nº de doentes com a doença específica para a qual se quer testar o medicamento. Este estudo chama-se ensaio clínico e sobre ele falaremos amanhã.

Em cuidados primários, o processo clínico eletrónico fornece a melhor informação clínica sobre os doentes

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Em cuidados primários, o processo clínico eletrónico fornece a melhor informação clínica sobre os doentes” com o Prof. António Vaz Carneiro: Em cuidados primários, o processo clínico eletrónico fornece a melhor informação clínica sobre os doentes

Todos sabemos que as tecnologias da informação em saúde podem ser de extrema utilidade para prestar cuidados de qualidade, ajudando a racionalizar a prática clínica.

O processo clínico eletrónico é um programa informático que serve para recolher a informação demográfica do doente (nome, idade, morada, estado civil, etc.), assim como os seus dados clínicos (definição da doença, testes diagnósticos de sangue ou de imagem, por ex., tratamento e seus resultados, etc.).

Como é fácil de ver, o processo clínico eletrónico constitui um instrumento de grande valia de suporte aos cuidados clínicos, já que, quando correctamente preenchido e utilizado, fornece informação de grande qualidade.

Isto mesmo foi confirmado num recente estudo em que os investigadores, tendo como modelo um conjunto de medidas preventivas em cuidados primários recomendadas para doentes diabéticos (rastreio de colesterol, vacinações da gripe, determinação do açúcar do sangue, entre outras), analisaram os dados dos processos clínicos eletrónicos, tendo concluído que estes são consideravelmente mais completos e detalhados que todos os outros, incluindo os processo em papel e até as fichas das companhias de seguros e serviços do Estado.

É portanto muito importante implementar o processo clínico electrónico no nosso SNS.

Os doentes obesos despendem mais recursos em saúde

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Os doentes obesos despendem mais recursos em saúde” com o Prof. António Vaz Carneiro: Os doentes obesos despendem mais recursos em saúde

A obesidade é um problema de saúde pública muito importante.

Em alguns países desenvolvidos, como os Estados Unidos, a taxa de obesos e muito obesos chega a 30% da população.

A obesidade constitui um factor de risco cardiovascular, oncológico e reumatológico, pelo que a manutenção de um peso ideal tem grande importância para a sua saúde.

Mas será que os pacientes obesos gastam mais dinheiro ao Serviço Nacional de Saúde? Segundo um estudo recentemente publicado, os gastos em saúde vão aumentando com a idade (um facto conhecido), mas numa percentagem superior nos pacientes obesos.

Nas mulheres, estas despesas revelaram-se mais altas logo a partir dos 22 anos, atingiram o seu máximo aos 66 e mantiveram-se até uma média de 77 anos.

Nos homens este aumento médio na despesa verificou-se mais tarde, apenas aos 48 anos, atingindo o seu pico aos 67 anos.

Ora aqui está mais uma razão para perder peso, caso seja obeso ou tenha peso a mais.

Os cuidados primários são a base da qualidade em saúde

Prof. António Vaz Carneiro

Oiça, em 1 minuto, o áudio sobre “Os cuidados primários são a base da qualidade em saúde” com o Prof. António Vaz Carneiro: Os cuidados primários são a base da qualidade em saúde

Ouve-se frequentemente afirmar que o segredo de um bom SNS é a oferta aos cidadãos de bons cuidados primários de saúde. Estas afirmações provém dos políticos, dos gestores, dos médicos e outros profissionais de saúde até dos doentes.

Mas que provas existem que suporte tal afirmação?

Bom, existem inúmeros estudos que confirmam esta ideia, mas um dos mais importantes foi recentemente publicado nos Estados Unidos, um país onde os cuidados de saúde primários seguramente não podem servir de exemplo…

Os investigadores foram estudar a relação entre a oferta de cuidados primários (neste caso médicos de família e internistas) e a mortalidade assim como a taxa de internamentos hospitalares. O estudo foi realizado em doentes com mais de 65 anos em toda a América e verificou-se que, tudo o resto sendo igual, quando havia um maior nº disponível de médicos de cuidados primários, os doentes eram menos hospitalizados e morriam menos das suas doenças. Estes resultados verificaram-se em todas as regiões dos Estados Unidos.

Eis portanto uma evidência científica da extraordinária importância dos cuidados primários num SNS.